Os sonâmbulos. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Equipe Focus
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A Primeira Guerra Mundial (IGM) foi estudada por muitos pesquisadores. Os líderes das grandes potências, na ocasião da conflagração, estariam desligados da realidade (Christopher F. Clark, 1953 – vivo), em “Os sonâmbulos: como eclodiu a Primeira Guerra Mundial”. O título sugere a interpretação do autor para a conflagração. A perda de contato com os fatos acontece repetidas vezes ao longo da história. Barbara Tuchman (1912 – 1989), em “A marcha da insensatez” enumera situações em que governos caminharam para o desastre, apesar das advertências, excluídos os casos em que as decisões foram tomadas apenas por um chefe absoluto, limitada aos governos em que havia espaço para a divergência.

O momento atual pode ser mais uma marcha insensata. É semelhante aos dias que antecederam a IGM, pela leitura de “Os canhões de agosto”, outra obra de Tuchman, que é uma interpretação segundo a qual os chefes de governo, na IGM, tornaram-se prisioneiros de uma retórica e de algumas decisões adotadas pela oratória política. A tragédia pode se repetir. A humanidade é trágica e farsante. A repetição é comum, com licença de Karl H. Marx (1818 – 1883). A política e a guerra têm a farsa como tática. A repetição de interesses e paixões humanas; de fatores geográficos que levam ao confronto pelo controle de estreitos nas rotas de navegação e dos desfiladeiros estratégicos e outros fatores recorrentes promovem a repetição histórica.

Alianças contribuíram para a guerra generalizada em 1914. A ilusão de que a integração econômica, gerando interdependência, fortaleceria a paz foi um erro. A Alemanha dependia de grãos e minérios da Rússia. Isso não impediu a guerra entre o os impérios do Czar e do Kaiser. A interdependência aprofundou o medo e levou ao conflito. A retórica em 1914 defendia o “direito” da Alemanha a um pedaço da África e da Ásia (outras potências tinham colônias). A França deveria recuperar a “honra nacional” retomando a Alsácia-Lorena. A Rússia era a “protetora dos eslavos”. A Sérvia lutaria pelos bósnios de etnia eslava.

Hoje a retórica é democracia, mudança climática (causada pelos outros), a governança mundial para combater terrorismo, tráfico de drogas, pessoas e armas, corrupção de políticos e empresários, a superação da soberania de nações (fracas) e o fortalecimento de organismos supranacionais. Tudo isso aprisiona políticos e dificulta acordos.
A situação financeira, depois da bolha imobiliária em 2008, que foi tratada pelos bancos centrais dos EUA, Europa e Japão, com expansão dos meios de pagamento, gerou uma bolha de tudo, que a pandemia fez crescer exponencialmente.

Guerra, sanções econômicas e despesas militares ameaçam a cadeia de produção e distribuição de bens, a inflação pela restrição da oferta, o desequilíbrio fiscal e a bolha financeira crescem. Erros de “sonâmbulos” sem contato com a realidade? Ou estratégia arriscada para substituir o dólar por uma moeda, talvez universal e virtual, criar um governo das grandes potências como alternativa ao desastre nuclear?

Seria o programa dos intelectuais, megaempresários e políticos do Collegium Internacional, defendido em “O mundo não tem mais tempo a perder” (coord. por Sacha Goldman), com uma só moeda, um só governo, um só exército, uma só Filosofia e uma só religião (liberdade de consciência excluída em nome da paz), invocando ou não “A paz perpétua: um projeto filosófico” Immanuel Kant (1724 – 1804). O calote da dívida das grandes potências viria junto com o grande reinício?

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