Catar, Copa e Democracia. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

A Copa do Mundo do Catar trouxe a tona uma grande diferença sobre o pensamento, o estilo de vida e a ideologia dentro das sociedades. Muitas vezes políticos e cientistas tentam passar a ideia que a implantação de uma democracia em uma sociedade ou um Estado é um objetivo fim. É sublimemente transmitido a ideia de que nações que são regimes não democráticos representam um atraso como sociedade e que apenas as nações democráticas são consideradas nações modernas. Mas isso tem um fundo de verdade?

Durante a Guerra Fria o objetivo fundamental das disputas era consolidar um dos dois modelos de produção, o capitalismo ou o comunismo. Obviamente a base política do capitalismo era a democracia enquanto o comunismo tinha na base política regimes totalitários.

Com o fim da guerra e a consolidação do capitalismo como algo superior e que foi globalmente aceito, com raríssimas exceções como em Cuba e na Coréia do Norte, a implantação da democracia foi levada a reboque, como algo quase que natural. Entretanto é importante ressaltar que se tratam de coisas historicamente distintas.

O capitalismo é uma evolução natural de processos de escambo, do metalismo e do capitalismo primitivo, desenvolvido por todas as sociedades ao longo do tempo em todas as regiões do planeta, passando dos feudos, guildas, impérios e Estados. O comunismo como uma construção social foi algo muito mais recente, que foi testado e excluído por sua ineficácia em apresentar resultados minimamente parecidos com sua teoria.

A democracia por outro lado é um conceito relativamente novo, iniciado na Grécia Antiga por volta do século V antes de Cristo, contudo amplamente divulgado com a implantação da Carta Magna na Inglaterra, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos.

Após a Revolução Industrial e o descobrimento das Américas o centro do mundo virou para o Atlântico e a democracia como princípio ocidental passou a ser exportado para a África, Oriente Médio, Ásia e Leste Europeu. Mas é realmente possível afirmar que a democracia ocidental é um princípio tão absoluto capaz de ser universalmente aceito como superior a outros estilos de governo?

Primeiramente é necessário entender que os Estados democráticos modernos tem na sua base uma organização social humana também recente. Civilizações como a chinesa, que se iniciou no século XXI antes de Cristo com a dinastia Xia, ou os eslavos, que se desenvolveram na Europa Oriental durante o século V e viriam a se tornar o que hoje conhecemos como russos, nunca possuíram efetivamente uma democracia como modelo de organização de sua sociedade. Essas civilizações foram criadas há milênios e se desenvolveram ao redor do planeta sem ter princípios democráticos em sua base social, o que não significa que princípios como justiça ou desenvolvimento econômico não existissem, mas se apresentavam de uma outra forma.

Os sumérios, povo que existiu até o século XIX antes de Cristo e que parte de sua região se transformaria na Arábia Saudita, dificilmente terá um mínimo teste em ser uma democracia, pois mesmo com a construção do Estado nacional, o governo continuou uma monarquia absolutista islâmica.

Várias das diversas guerras patrocinadas pelos Estados Unidos no Oriente Médio durante o século XX e XXI tinham como “motivos de invasão” o fim de regimes totalitários e a implantação de democracias nessas nações. Mas será mesmo esse o motivo? Em vários desses casos os regimes despóticos eram realmente opressores e isso revoltava a população a ponto de apoiar uma invasão externa para destituir o atual regente do país, mas não era regra, não foram em todos os casos que isso ocorreu.

Para algumas nações, como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita ou o Catar, o sistema de governo é totalitário e princípios democráticos são inexistentes, mas isso não significa que esses líderes sejam necessariamente tiranos. Em vários desses Estados a população tem uma idolatria pelo soberano e pela família real, principalmente com mudanças e com o desenvolvimento econômico chegando na região.

Nações como a China e parte do mundo árabe entendem que a democracia é um importante princípio para as nações ocidentais e ao contrário da Guerra Fria, não existe um movimento dessas nações em tentar impor suas ideologias iliberais no mundo ocidental, procurando uma espécie de hegemonia, como fora tentado com o comunismo no século XX.

Mas ao mesmo tempo os embates políticos entre essas nações passam um recado muito direto as nações ocidentais: “nunca tivemos e não queremos democracia, respeitamos seu sistema de governo, mas não tentem mudar os nossos.” A democracia é em si só um princípio e como todo princípio é respeitado e adotado por uns, rejeitado por outros, principalmente quando o princípio oposto é mais antigo e amplamente aceito em uma determinada região geográfica.

Continuo sendo um democrata e acredito que a democracia liberal é o sistema mais justo dentro de uma sociedade para o seu desenvolvimento, mas a possibilidade de mudar organizações políticas de civilizações milenares é algo extremamente difícil, de tal modo que acredito muito mais em uma coexistência com diversos sistemas políticos do que um eterno debate ou tentativas de imposição que ao final levam muito mais a um aprofundamento do abismo entre o oriente e o ocidente.

Neste sentido a Copa do Mundo no Catar nos apresentou uma realidade dura e direta. Os valores os quais nós temos como universais, tais como igualdade de direitos, igualdade de gênero, liberdade afetiva e escolha dos representantes estão muito longe de serem realmente universais.

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