O golpismo e a questão militar. Por Ricardo Alcântara

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O exército brasileiro, que fundou a República com um golpe de Estado, desde então nunca largou o osso e sempre se postou como eventual Poder Moderador no Brasil, missão que de nenhum modo a Constituição lhe atribui. É verdade.

Verdade é que entre os oficiais de alta patente muitos não fizeram gosto em disfarçar sua identificação ideológica com o famigerado governo de Bolsonaro, demonstrando que ainda estão onde sempre estiveram: atados aos paradigmas superados da Guerra Fria.

Configura igualmente evidente que as Forças Armadas flertaram com o golpismo entre a eleição e a posse do presidente Lula para, instaurado o novo governo, participar da mal sucedida manobra de incendiar o país a partir da eclosão dos episódios bárbaros de domingo.

As premissas estão todas corretas. Mas iludidos estão os que, com base nelas, exigem do presidente eleito uma atitude mais dura e definida de pronto enquadramento da instituição militar, minerando na corporação evidências de suas responsabilidades de colaboração nos atos terroristas e punindo os elementos faltosos de seus deveres.

Faz bem Lula não pegar corda desses celerados porque a correlação de forças, internamente, não o favorece de modo algum. Ora, não basta estar ao lado da lei: importa também saber quantos estão dispostos a se sacrificar pelas consequências de seu rígido cumprimento.

É preciso cautela. Verdade incômoda, amplos setores da sociedade dariam suporte a uma intervenção militar e as armas, em seu poder extraordinário, não precisam, para prevalecer em situação de confronto, de mais de 20% de apoio social e isso eles têm e sabem que têm.

Caso tentasse o presidente iniciar todo o processo de investigação com a mira nos quartéis, correria o risco de não ser acatado em suas decisões e veria seu governo acabar – na prática, no que há de efetivo na construção do Poder – antes de alcançar as quatro luas do primeiro mês.

O estamento político não detém as condições objetivas de enquadrar o aparato militar, por completo e de imediato, por uma razão simples (e lamentável): não priva de prestígio social, credibilidade suficiente para emparedar a instituição armada que, aos olhos da maioria da população, é vista como o reduto final da boa moralidade nacional, por maior que seja o engano.

Quem pede a Lula a cabeça do seu dúbio ministro da Defesa – que mais parece representar os militares perante o presidente e não o oposto, como é de sua atribuição funcional – acredita, ingenuamente, que a formalidade da lei tem força própria quando, ao contrário, toda ela se sustenta sobre o patrocínio continuado da sociedade.

O mais habilmente favorável à normalização é neutralizar esse potencial intervencionista mediante a responsabilização judicial das forças civis que fornecem o oxigênio das aspirações golpistas porque, já não havendo apoio externo à tal aventura, é a secção dos seus vínculos civis que poderá devolver o pensamento militar à rotina de seus afazeres como instituição de Estado.

Mais adiante, com a maior dispersão das forças fascistas e a consolidação do governo a partir de uma agenda positiva (tenho esperança) se poderá adotar medidas explícitas que tornem mais limitantes os espaços de ação do poder armado na vida civil. Até lá, calma com o andor. Sim, há de ser. Mas não agora.

 

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

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