Às vésperas do dilúvio. Por Angela Barros Leal

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Não é o primeiro dia de chuva, como ontem também não foi o primeiro, nem o dia antes de ontem. Há dias chove, uma chuvinha constante que quase sempre se inibe com o avançar da manhã, e liberta sua força no fim da noite e na madrugada.

As ruas estão cheias de água. Meses de sol, de folhas secas, de plásticos e papéis velhos refugiaram-se dentro dos bueiros, saciaram a fome das bocas de lobo que agora estão fartas e incapazes de engolir a água das sarjetas, como é seu dever.

As calçadas são ciladas guerrilheiras, armadilhas terroristas. Nunca se sabe se o próximo passo vai ser em terra firme ou num abismo camuflado pela correnteza, poço sem fundo habitado por cobras de duas cabeças, escaravelhos, escorpiões, lagartas cegas e mais criaturas das profundezas terrestres, forçadas a emergir para a superfície à força do que alguns denominam “mau tempo”. 

O cheiro da terra ascende aos céus. O cheiro pesado, denso e íntimo da terra, da qual são expulsos organismos invisíveis e perigosos. As árvores ganham peso na chuva. Os galhos curvam-se rumo ao chão, o tronco escuro transfigurado em rio vertical. Suas raízes se fazem expostas a partir do que se derrama sobre elas, enquanto as folhas encharcadas forram o chão com um tapete ocre e marrom, que sangra água sob nossos passos.

Pessoas refugiam-se sob as árvores, braços cruzados sobre o peito, o corpo em alerta para uma pausa que permita uma corrida rápida até à proteção, nem sempre mais segura, das marquises de concreto. 

Os filetes que correm nas coxias engrossam nas ladeiras, tomam volume e criam força com a chegada dos afluentes das ruas transversais, precipitando-se para o mar na confirmação do que dizem os livros de geografia: esse é o trajeto fundamental, tão assemelhado ao nosso, o de fluir rumo a seu destino final.

As manhãs não amanhecem, e as crianças de sorte, estremunhadas, protestam em vozes roucas, mal despertas: Mas ainda é de noite! Com a chuva, retiram-se dos armários, para a necessária limpeza, as capas plásticas protetoras, esbranquiçadas pelas manchas de mofo, as botas de borracha onde procriam famílias de aranha, as listas de livros e material a comprar para a escola. 

É tempo bom para encapar livros e cadernos com folhas amarelas de papel madeira, tentando vencer a rebeldia das fitas adesivas. É tempo bom para escrever nos cadernos os nomes das crianças, com caligrafia redonda e caprichada, herança semiesquecida de outros tempos. Livros novos tem cheiro de chuva, páginas úmidas tão fáceis de passar, sem o crepitar agressivo do papel em dias de sol. Os lápis escrevem macio, as pontas deslizando sobre superfícies domadas.

As crianças de sorte apertam o rosto nas janelas de vidro, seres estranhos se vistos de fora. A face é um círculo, o nariz é massa disforme caindo sobre a boca, o prazer de assustar. Os adultos nas casas – as mães sem emprego, as domésticas sem serviço, os homens sem saúde – acompanham silenciosos a cortina de água que desce do céu, quando a chuva leve se transforma em dilúvio revisitado.

Os trovões estrondejam, ribombam, retumbam como tambores, conjugam seus verbos em sinfonia barulhenta que serve de trilha sonora para a luminosidade dos raios e relâmpagos capazes do milagre de clarear as noites. As gotas de chuva são dardos lançados de um céu que parece estar ao alcance das mãos.

Chove daqui ao fim do mundo, em nuvens pesadas saídas das páginas de catecismos antigos, nuvens de fim dos tempos, de infindos temporais. Chove no dorso dourado de lagartos nas Ilhas Caimãs, chove nas plantas carnívoras das selvas filipinas, chove nas asas dos pombos encolhidos nos ombros das estátuas, chove sobre a frieza imemorial da cidade proibida da China, chove sobre as minas de carvão na Inglaterra, chove nos barcos piratas da Somália, à espreita em pleno mar, chove nos barracos das favelas e comunidades, sobre pequenas crianças de olhos assustados. 

Chove nos brinquedos vazios e no pátio dos colégios, onde os saltos dos sapatos das crianças que têm a sorte de aguardar seus pais escavam círculos perfeitos, que se transformam em poças de lama e fonte inocente de alegria.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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