As mãos do medo. Por Angela Barros Leal

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Ainda dentro do elevador, na altura do terceiro andar o rapaz começou o processo de esvaziar os bolsos, despejando o conteúdo deles na bolsa aberta da esposa, uma sacola de grande porte, habituada a carregar volumes. Pelo canto do olho, vi que a carteira dele, o celular, chaves e moedas avulsas, papeis soltos, tudo coube lá dentro. Nas mãos dele, apenas o chaveiro do veículo.

“Vocês esperam na porta enquanto vou buscar o carro”, ele comandou, entre o segundo andar e o primeiro, dirigindo-se à mulher e às duas crianças, enquanto eu analisava a iluminação tremulante no teto do elevador.

A esposa manteve aberta a bolsa. “Leve cinco reais”, ela empurrou uma nota na direção da cintura dele, em olhos de preocupação, ciente da rua igualmente pouco iluminada que íamos encontrar lá fora.

Com a cabeça ele fez que não, rosto fechado, focado na porta, como quem traça estratégias de batalha. Antes de chegarmos no térreo ela voltou a insistir. “Leve cinco reais, vai que você não dá nada, e ele fica zangado…” – sendo “ele”, pelo que deduzi naquele breve percurso, o potencialmente ameaçador guardador de carros.

Nós cinco, somando o rapaz, sua pequena família e eu, descemos no piso térreo do edifício, no centro da cidade, pouco depois das oito da noite. A mulher ficou diante do portão gradeado do prédio, mantido entreaberto, por medida de segurança, até a saída do último convidado ao evento noturno.

A filha pequena e o menino maiorzinho sentaram no degrau da escada enquanto o marido, pai, provedor e guardião descia para a calçada escurecida, incumbido da missão de ir buscar o veículo onde o deixara, duas horas antes e algumas quadras para trás.

Que tempos são estes, eu pensei enquanto aguardava meu táxi, vendo o rapaz seguir pela calçada acompanhado pelos olhos aflitos da esposa, ainda apertando a rejeitada nota de cinco reais, angustiada como se visse o marido partindo para a batalha em algum front oriental.

Os ombros dele seguiam erguidos, as mãos fechadas, a ponta aguda da chave certamente firme entre os dedos, enquanto marchava de uma poça de luz a outra.

A mulher devia enxergar, em cada vão de porta, uma emboscada inimiga e, em cada traseira de carro estacionado, uma trincheira hostil.
“Senta!”, ordenou, ríspida, às duas crianças inquietas, distraindo-se por um segundo da vigilância protetora das costas do marido, que diminuía de tamanho na terra de ninguém que era o quarteirão seguinte.

Eu continuava a esperar o táxi, sem muita pressa. A mulher esperava conflitos, previa morticínios, duvidava de retornos, enxergava viuvez e orfandade, premida por uma nuvem de receios herdados ou adquiridos.

“Faz medo”, ela me disse, iniciando uma conversa de estranhos, meio se justificando pela evidente ansiedade, buscando em mim uma aliada. “Faz medo”, eu repeti solidária, sobrevivente também de outras esperas, nós duas integrando a legião dos que temem ser deixados para trás.

“Outro dia, por aqui mesmo…” – ela principiou, desenrolando um espesso novelo de desventuras contadas ou vividas ali, naquela região central da nossa cidade, histórias trágicas ouvidas com atenção pelos dois filhos. “Um perigo enorme!”, reafirmou minha colega de espera, o olhar transfigurado de testemunha de apocalipses refletindo-se no meu.

O carro da família freou com força diante da porta do edifício. O marido alongou-se apressado sobre o banco, atento aos dois lados das calçadas, abrindo por dentro a porta da vulnerável armadura de metal e fibra de vidro, que abrigou sua família em um suspiro quase audível.

Meu táxi buzinava logo atrás. Partimos em marcha de fuga por nossos percursos paralelos, que não se encontrariam sequer no infinito, indiferentes ao brilho da luz da lua, desatentos à sombra histórica dos monumentos da Praça, insensíveis ao abraço da brisa morna, vinda do mar, fechados ao encanto das fachadas antigas das lojas, cruzando com olhar de cego a inegável doçura do centro adormecido da cidade.

Partimos como perdedores: feridos de morte pelas mãos molhadas do medo.

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