1 centavo de bom senso. Por Angela Barros Leal

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Na ponta do lápis, 1 centavo de real vale nove vezes menos do que o custo para sua produção. Ou é o que valia em 2010, conforme o jornal O Globo, no tempo ainda em que havia galos e noites nos quintais, e jornais de papel nas bancas.

A última cunhagem de moedas de 1 centavo pelas máquinas do Banco Central se deu no ano de 2004. A partir daí vem acontecendo a extinção natural da espécie. O destino delas tem sido sumir aos poucos em ralos, bocas de lobo e bueiros, serem engolidas pelas dobras de poltronas e sofás, pisoteadas nas calçadas por cidadãos que sequer se dão ao esforço de curvar as costas para recolhê-las, ou descansarem para todo o sempre nos cofrinhos das crianças, para quem qualquer dinheiro é dinheiro.

Não chegamos ainda ao ponto alcançado por alguns países, como Argentina, Israel e África do Sul, onde as moedas de 1 centavo foram declaradas oficialmente extintas, seu fim selado, assinado e formalizado. As nossas, embora com pernas frágeis, ainda circulam em nosso país, ainda possuem valor legal, e são mais lembradas por omissão, pelo efeito reverso indicado em produtos que trazem a casa final em 99 centavos.

Se a moeda de 1 centavo não ajuda, ainda possui a capacidade para nos criar problema. Como na hora do troco, instante crucial no qual se percebe que a lógica teórica nem sempre se ajusta à crua realidade.

Imagine-se entrando apressada em uma loja para adquirir duas velas de aniversário, indicativas da comemoração de uma idade na casa dos dois dígitos. E que, após o tilintar da caixa registradora, já com a nota de compra na mão, você perceba que a segunda vela precisava representar o número 3, digamos, e não o 2 que você comprou.

Seu primeiro pensamento é: uma simples troca vai solucionar o deslize.

Quer dizer: seria simples, caso você consiga encontrar, no meio da variedade de velas expostas, o algarismo que você precisa. Para sua falta de sorte, não existe uma igual em tamanho, modelo e cor. Há modelos semelhantes, e é a eles que você recorre, engolindo em seco na hora da escolha. Você analisa as duas velas que vão enfeitar o bolo. São visivelmente diferentes, mas não há o que fazer.

De volta ao caixa, a atendente anuncia outro problema: sua nova compra é 2 reais mais barata que a compra inicial. Aflita com a perda de tempo, você diz que dispensa essa diferença. Que os 2 reais fiquem com ela, você implora, que dê esse dinheiro a alguém, porque você precisa ir embora.

Impossível, descarta a vendedora. As contas da loja devem chegar ao final do dia mostrando o mesmo valor entre o que foi vendido e o que foi contabilizado na máquina. Diante da sua insistência ela chama a gerente, o que representa mais tempo perdido. Até a chegada da gerente, escoam-se os minutos por seus dedos aflitos, ocupados em agitar a chave do carro, estacionado na calçada, sob o risco iminente de multa.

Apressada, você reconta o caso e escuta outra sugestão: já que a política da loja é irredutível, compre algum produto no valor de 2 reais, e está resolvido.

Nada que você vê na loja custa 2 reais. A vendedora auxilia trazendo um minúsculo objeto, de utilidade desconhecida, que empurra para suas mãos.

No registro do caixa, o objeto custa 1 real e 99 centavos. Ou seja, 1 centavo a menos, o crédito a seu favor, de uma moedinha inexistente no caixa. A vendedora repete: a loja precisa chegar ao final do dia etc, etc.

A essa altura, vendo-se prestes a desaparecer em um enredo kafkiano de terceira qualidade, você perdeu a pouca paciência de que dispunha. Quase chega ao grito quando a vendedora avisa que vai voltar a chamar a gerente. Para resolver a questão de um centavo.

Você atropela as regras da casa comercial, dá a discussão por encerrada, dispara de porta a fora, o rosto vermelho de ansiedade, a pressão arterial certamente nas alturas, e acelera o carro repassando o que você sabia na teoria, e que acabara de ser desmentido na prática.

Tudo pela falta de 1 centavo – e de uma quantidade mínima de bom senso, essa sim, moeda difícil de encontrar.

 

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