Elis Regina e Barbie: con o sin palo? Por Pádua Sampaio

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Contou-me certa vez um amigo colombiano, que viveu em áreas remotas da Bolívia, sobre as duas modalidades de viagem oferecida por mototaxistas da região: “con palo o sin palo”. Traduzindo, com ou sem pau. Ele não entendeu muito bem o porquê e, como “sem pau” era mais barato, acabou optando por essa forma – de moto y sin palo – para ir até a faculdade, que não ficava perto.

No meio do caminho, tudo fez sentido. O pedaço de pau alugado servia para afugentar cães de rua que corriam atrás das motos, ladrando ferozmente e tentando abocanhar um calcanhar que fosse. Mas, felizmente, logo desistiam e passavam a investir contra o próximo desavisado que viesse.

Lembro dessa história todas as vezes que vejo uma polêmica nas redes sociais. Há quase um mês – o que na vida canina e na internet corresponde a uns 5 anos – vimos a polêmica envolvendo o comercial da Volkswagen que, por meio da Inteligência Artificial, colocou mãe e filha cantando juntas, com direito à menção ao Belchior e tudo mais. Bonito como há muito não se via.

No entanto, houve quem se sentisse incomodado com o fato de Elis Regina ter sido “ressuscitada” nesse comercial, e a peça, além de muitos elogios, ganhou uma representação no Conar, o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária. Isso foi no começo de julho e agora pouco se ouve falar sobre o tema. É que a matilha viu outro motoqueiro vindo: o tal filme da Barbie.

Há avaliações de todos os tipos, análises minuciosas de cada fala, cada trejeito, cada comportamento e a conclusão para os queixosos é que não, não é um filme para crianças. Poupar-se-iam esforços se observassem a classificação indicativa do filme, que é justamente de 12 anos. E não à toa: para o ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, a infância vai até justamente essa idade. Então, bingo: não é mesmo um filme para crianças.

Os mais apocalípticos acreditam que a exposição ao filme acarretará naqueles que o assistirem uma adoção imediata de comportamento da boneca, numa espécie de “estímulo-resposta”. Do ponto de vista da Comunicação é curioso ver que uma ideia mais antiga do que a própria Barbie ainda sobrevive em meio à tanta tecnologia.

Dois estudiosos, Lasswelll e Lippman, no contexto do surgimento dos meios de massa, ainda na primeira metade do século passado, lançaram uma teoria batizada de “Teoria Hipodérmica”, posteriormente endossada por outro grupo de acadêmicos da chamada Escola de Frankfurt, de forte viés progressista.
Todos defendiam que as audiências respondiam de forma automática aos estímulos recebidos, provenientes de meios como o rádio, o próprio cinema e posteriormente a TV.

Assim, seríamos espécies de zumbis do The Walking Dead, sem vontade e opiniões próprias; aglomerados humanos incapazes de discernir sobre o que é bom ou mau para nós mesmos; ou seja, presas fáceis para a famigerada indústria cultural alienante.

Só que não é bem assim. Eu, particularmente, assisti a todos os filmes da trilogia Sexta-Feira 13 e não faço a menor ideia de como se liga uma serra elétrica. E nem tenho pretensões de aprender. Também não lembro de uma explosão populacional no Brasil após as aparições diárias de Jorge Tadeu e sua famosa flor, durante o horário nobre, em Pedra Sobre Pedra (crianças, pesquisem).

Vários estudos posteriores escancararam a ingenuidade dos hipodérmicos e frankfurtianos – e agora dos anti-barbianos. A situação foi mais ou menos pacificada quando, por volta dos anos 70, um teórico chamado McCombs criou outra teoria, chamada “Agenda Setting” que, em linhas gerais, defende o poder dos meios para pautar discussões, mas reconhece a limitação para moldar comportamentos. Algo bem mais razoável, convenhamos.

Mas o mais interessante disso tudo é ver o grande poder ainda atribuído aos meios de comunicação de massa em tempos de segmentação; de novas tecnologias. Bem como ver lados antagônicos – frankfurtianos e críticos ao filme pelo caráter progressista do roteiro – ainda que separados por um século, defendendo arduamente a mesma teoria e partindo exatamente da mesma premissa: a incapacidade de as pessoas discernirem por elas mesmas aquilo que é bom ou ruim.

No fim das contas, para o bem ou para o mal, seja qual for a interpretação de cada um, é apenas um filme. Para os mais preocupados, o mundo tem e terá problemas e ameaças mais urgentes. Ver ou não é opção de cada um, sabendo que é possível evitar a telona, mas poupar da realidade é mais complicado.

Nesse sentido, parece mais efetivo reforçar a educação em casa do que digladiar
com uma boneca que sequer encosta o calcanhar no chão. De qualquer forma, muito em breve essa discussão será esquecida. Mais exatamente quão logo uma nova motocicleta surja no horizonte, con o sin palo.

Pádua Sampaio é publicitário, empresário, professor e colaborador do Focus.jor, no qual assina artigo às quintas-feiras.

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