Sobre a dor. Por Angela Barros Leal

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Dor. Foto: Pexels

Minha mãe costumava nos dizer: Meu limiar da dor é muito alto. Era incomum ela contar vantagem sobre alguma coisa, sempre tão modesta em relação às suas qualidades, que até nós, os filhos, percebíamos como esse fato referente à dor a enchia de orgulho.

Eu pensava em como seria esse limiar da dor, e imaginava um portal arqueado, de grandiosas dimensões, uma curvatura sinuosa de pedra e massa, erguendo-se até tocar as nuvens, como nas construções hispânicas que eu tinha visto em fotografias, nas revistas National Geographic que chegavam para o meu avô.

Nunca perguntamos a nossa mãe como testara o tal limiar, como podia ela afirmar, com tamanha segurança, um tão ressaltado diferencial, mas presumíamos que houvesse alguma relação com o fato de ter posto no mundo 7 filhos, em um tempo em que os benditos deuses anestesiantes ainda começavam a ensaiar seus poderes.

O limiar da dor da minha mãe era inacessível a nós, as crianças, que sofríamos desbragadamente por qualquer nada, vulneráveis a qualquer acidente banal, os rostos lavados de lágrimas – em especial se houvesse a presença de sangue.

A cura doía tanto, ou mais, do que o próprio machucado. Minha mãe vinha em seus saltos altos, que não retirava por nada, trazendo a caixinha de primeiros socorros: uma bacia pequena, de flandres, para lavar o ferimento, o temido vidrinho de merthiolate, um pedaço de gaze e um esparadrapo largo, que cortava com uma tesourinha.

Quando necessário, para que o curativo se adaptasse à extensão do problema, ela rasgava as tiras de esparadrapo ao meio, com um ruído áspero e único, em um movimento seguro das mãos (nós, pequenos selvagens, na nossa pressa rasgávamos com os dentes mesmo, o que deixava na boca um gosto amargo de remédio.)

Talvez por ter tão alto o limiar da dor, ela não costumava dar muita importância aos nossos arranhões, cortes, lesões e perfurações. Talvez por isso mesmo é que não costumavam evoluir para nada grave. Além de não sentir dor, ela possuía o dom da cura, nós acreditávamos, e voltávamos às brincadeiras causadoras de novos ferimentos.

Muito mais tarde iríamos aprender mais sobre o sofrimento, pois com a passagem do tempo o corpo nos trai, arma rebeliões contra si mesmo, divide ou multiplica as dores quanto à duração, quanto à forma e a intensidade. Sei que para cada uma delas existe uma nomenclatura própria, teórica, empregada pelos doutores da medicina, porém faço minha opção pela linguagem que conheço, a classificação prática dos sofredores.

Existem as dores cortantes, súbitas, pontudas como um espeto de carne, e igualmente perfurantes. Dores eletrizadas que relampejam em partes distintas do nosso corpo, tirando o fôlego por um segundo e nos dando uma ideia de como seria a transfixação por flechas em guerras medievais, ou nos campos de batalha dos indígenas.

Essas são dores refinadas, egoístas, que ocupam nosso pensamento quando surgem, e não nos deixam pensar em mais nada além delas. Dores que tocam a extrema sensibilidade dos nervos, do mesmo jeito que o acionar de uma tecla extrai o som de um piano, que o contato em uma corda gera o som no violão. Sinto uma pontada aqui – resumimos para o médico, empurrando a ponta dos dedos para indicar o local exato em que se manifesta.

Existem as dores continuadas, ressoando por longos períodos como o rufar de um tambor a distância. São dores surdas, suportáveis, embora se façam incômodas e inconvenientes, repousando no background dos nossos dias qual fosse um sistema orgânico com vida própria (o sistema respiratório, o sistema linfático, o sistema doloroso). Um desconforto, dizemos ao médico, a mão espalmada sobre a região sofrida, esperando que ele nos anime: sim, nada mais que um desconforto.

São dores de estruturas pesadas, de oficina mecânica, dores de ringue de boxe, de obras de grande porte, de martelos, de bate-estacas. Dores que chegam calçando botas de couro e pisoteiam nossa pobre carne castigada, dores que trovejam em demorados bramidos, indicativos da aproximação de temporais.

Existem ainda aquelas latejantes, pulsando no compasso do coração, as itinerantes, que se deslocam de um ponto a outro, as dores agudas e crônicas integradas ao nosso viver, e isso porque não quero mencionar aquelas dores invisíveis, imateriais, do espírito, da alma, do coração partido, as dores emocionais infindas das perdas, das despedidas, dores sem cura e sem remédio, parte integrante da vida.

Na idade em que todos nós somos órfãos, sabemos que não existe mais nenhuma mãe que venha nos consolar, soprar o lugar do machucado, fazer o curativo exercendo seu poder de cura. E já que o tempo é o principal causador desse tipo especial de sofrimento, transferimos a ele a obrigação de erguer, na mais elevada altura, o nosso limiar da dor.

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