Boleiros. Por Angela Barros Leal

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Boleiros. Foto: Divulgação

Três e meia da tarde, o sol queimando, e lá estão os meninos, 6 deles divididos em dois times, jogando futebol no campinho do prédio. Não sentem o chão queimar, por usarem chuteiras, mas as cabeças molhadas e os rostos vermelhos exibem os efeitos do calor. A cada gol, o goleador ensaia uma comemoração especial, copiada de seu jogador preferido, adaptada ao corpo infantil: é assim que pretende fazer, no dia em que vier a jogar em campeonatos mundiais, as câmeras e os olhos do mundo sobre ele.

O zelador do edifício, balde e rodo encostados na parede, é o técnico. Dos dois times. Acumula também a função de juiz, e que o síndico não veja tal multiplicidade de tarefas. A avó pede um intervalo e entra em campo, feito autoridade de FIFA, para beijar as cabecinhas suadas da sua dupla de boleiros. São tão sérios, esses meninos, tão compenetrados na ocupação de jogar. Aproveitam a pausa para beber um gole de água morna, das garrafas que ficaram pegando sol na beirada do muro, depois acenam um cartão vermelho e expulsam a avó de campo.

Se fizerem um raio-x da cabeça desse menino, vão encontrar uma bola lá dentro! – reclama o pai sobre o mais velho – o mais empenhado no esporte –, meio a sério, meio brincando. E não só do mais velho, de 8 anos, mas também do menor, de 6 anos: os mesmos sintomas. Duas cabeças infantis sofrendo o ainda não catalogado mal de carregarem bolas de futebol pelo lado de dentro do crânio.

Iguaizinhos os dois, ávidos por futebol. Dormem e acordam pautados pela bola. A colcha da cama é um campo de 0,90 cm por 1m 90 cm. O lençol tem a estampa didática de passes e jogadas. A fronha do travesseiro é um grito de gol. A bola, essa adormece e desperta ao pé da cama, feito um bichinho de estimação. Conhecem as bandeiras de todos os países que participam de campeonatos mundiais, e sabem de cor o nome dos melhores jogadores, por mais complicados que sejam.

Um dia desses, o pai reuniu os dois, todos muito solenes, em uma conversa sobre os planos para o futuro, apresentando a eles possibilidades de trabalhos envolvendo consultórios e escritórios. Os dois se entreolharam: Mas pai, a gente vai ser jogador de futebol! – responderam em conjunto, espantados com a ausência de visão paterna.

Como jogadores, iriam viajar e representar e o Brasil pelo mundo, aprender novos idiomas, realizar jogadas capazes de permanecer na história do futebol. Ainda não incluem as conquistas amorosas, por ser muito cedo para isso, porém pode haver uma ideia difusa de tal bônus. Tudo muito acima e além do que um mero trabalho de consultório ou de escritório poderia proporcionar, em termos de orgulho e alegria.

Fora do campo, jogam na sala da casa, em espaço delimitado pelo sofá, pela estante, pelas telas da janela e pela sofrida porta de entrada. Os chutes já vitimaram o ventilador de pé, a cúpula de um abajur, três ou quatro lembrancinhas de viagem, e diversas vezes ameaçaram a integridade do aparelho de televisão.

Os pais proíbem o uso da sala como campo. Saem para trabalhar, e os pés dos meninos se movem inquietos, rejeitando a inatividade. Há pelo menos uma bola por perto e lá começa o futebol, esse fruto proibido que a avó não se encoraja a negar que devorem, assim como não consegue evitar ouvir a explicação de passes que consideram mágicos.

Assim é o frango –, diz um deles. O chute bobo que resulta em um gol, o mais novo deixando a bola, mal e mal impulsionada pelo mais velho, passar entre suas pernas fininhas. Uma caneta é assim –, eles demonstram, os dois unidos no didatismo, um passando a bola por debaixo das pernas do outro. A avó aplaude as demonstrações, entusiasmada torcedora.

O chapéu é desse jeito – um passe que tentam executar algumas vezes, até que um deles consegue passar a bola por cima da cabeça do irmão, e levar nos pés a dita bola, já do outro lado. A bicicleta, essa exige o sofá: não querem se contundir, nem acrescentar mais machucados à extensa galeria deles, nas pernas, nos joelhos, nos cotovelos, cicatrizes de batalhas com times adversários, da escola, do prédio, das aulas de futebol que praticam quatro vezes por semana.

E retomam o jogo na sala, enquanto os pais não chegam, e correm para o abraço. Sorte da avó, de não terem ainda instalado na sala nenhum VAR. Ou de saber que os pais aceitam um drible nas regras, pelo puro amor que ela tem aos seus boleiros.

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