Amelia e a mariposa. Por Angela Barros Leal

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Você pode dizer que não acredita, mas o destino da aviadora Amelia Earhart foi traçado no momento em que ela estava prestes a deixar Fortaleza, na manhã de 6 de junho de 1937. Não que não tivesse sido avisada: tinha sido, sim, mas faltou quem interpretasse a mensagem, quem a transmitisse a ela, e assim a salvasse de sua triste sina.

A noite de sábado para domingo, o dia marcado para a partida, tinha sido tempestuosa. Amelia acordara pela madrugada, no quarto do Excelsior Hotel, ouvindo o dilúvio derramar-se lá fora, as bocas de jacaré despejando a água em bicas, alagando as calçadas desertas.

Preocupara-se com os estragos que a chuva poderia estar causando ao modesto campo de pouso da Base Aérea de Fortaleza, onde o Electra Lockheed pilotado por ela descansava.

Natal era o destino planejado para a próxima escala. De lá, ela e o controlador de voo, o navegador Fred Noonan, prosseguiriam viagem para a África e para a Ásia. De volta para casa, após cruzar terras e oceanos, Amelia daria por findo o desafio a que se propusera, na celebração de seus 40 anos de idade: circunavegar o mundo “pela cintura”, pela linha do equador.

Desconhecia o capricho dos nossos aguaceiros tropicais, e a audaz incidência do nosso sol. Surpreendera-se ao chegar na Base Aérea, e encontrar o campo seco, sem danos capazes de prejudicar a segurança da decolagem.

Nem uma só das pessoas que a acompanhavam percebera o sobrevoo das Parcas, divindades responsáveis pela vida e morte de cada ser humano, tecendo, estendendo e cortando seus fios, na calma da manhã.

“Nós relacionamos o que tínhamos acumulado nos últimos dias” – Amelia anotara, otimista, em seu diário de bordo. Costumava enviar mensagens ao marido, nas escalas dos voos. A partir das mensagens, seria publicado seu livro póstumo, The last flight. Incorporara uns poucos itens à escassa bagagem, incluindo de última hora “um objeto inusitado”, como registrara. “An unusual object”.

Tratava-se de uma mariposa enorme, de asas nas cores amarelo e violeta, que pousara e se mantinha em destaque sobre o tecido escuro do assento do piloto.

Ah! Amelia, coitada de você! Tão norte-americana, tão prática e direta, tão certa de seu direito a buscar a felicidade, tão familiarizada com máquinas e engrenagens –, e tão imensamente desconhecedora das camadas sombrias que existem entre os mundos. Você não viu nada demais naquela presença alada, repousando onde você iria sentar. Achou engraçada, apenas, a visão da mariposa, e anotou uma bem-humorada observação: a de que o inseto imóvel, de asas opacas, devia ter reconhecido, na “vespa motorizada” que era a aeronave, “um irmão mais velho”.

Muita gente cercava Amelia e Noonan, tentando abreviar os procedimentos para a decolagem. Ninguém foi capaz de alertá-la para que não embarcasse, de pedir que adiasse o voo por algumas horas, uns poucos minutos, aguardando que a mariposa partisse para outras paragens e, só então, os dois pudessem prosseguir viagem.

Não sabiam, aquelas pessoas todas, que mariposas são mensageiras dos espíritos? Não sabiam que são arautos de maus presságios? Que trazem as sombras dos mundos dos mortos, usufruindo de trânsito livre entre a Terra e o Além? Que o repouso delas em um dado lugar emite claro recado? Que não é bom prognóstico espantá-las com as mãos, enxotá-las com um pano ou lenço, sendo vital aguardar que elas abandonem, por conta própria, o ponto onde tramam sua cumplicidade com as Parcas?

Veja! – alguém poderia ter dito a Amelia –, quem sabe eu mesma, bracejando contra as dimensões e contraturas do tempo e do espaço, voltando ao passado pela pura força de vontade, surgindo ao lado dela, puxando a manga do seu casaco para que atentasse ao que eu tinha a dizer, nós duas protegendo os olhos do brilho metálico do avião e eu, aflita, tentando fazê-la entender a impossibilidade da decolagem.

Veja, Amelia! – ninguém se encorajou a avisá-la. Veja esse corpo peludo, espesso, essas asas alargadas e imóveis, impondo uma marca em cruz sobre o assento, essa tensão silenciosa de quem conserva segredos! Mariposas não sinalizam bons augúrios. Fique mais um pouco, espere, sua vida está em jogo!

A mensagem havia sido enviada. Naquele dia, a fatalidade cruzara o caminho da aviadora, e seu inevitável desaparecimento estava sendo inscrito, a ferro e fogo, no volumoso Livro das Desventuras. Como eu disse antes, você pode até não acreditar no que se diz sobre feitiços – como eu mesma talvez não acredite. No entanto, como sabem os moradores da Galícia, e como nos foi confirmado pela história de Amelia, “no creo en brujas pero que las hay, las hay…”.

 

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