Álbum de viagem. Por Angela Barros Leal

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Por Angela Barros Leal
Articulista do Focus

Você olha as incontáveis fotos da sua mais recente viagem, armazenadas para todo o sempre no seu aparelho celular, condenadas a raras visitas, e pensa: quem será essa mulher de pele escura, a varrer o corredor da Igreja do Santo Condestável, em Lisboa, erguida ao lado do Mercado do Campo do Ourique, essa mulher que agora passou a ser parte integrante dos seus registros fotográficos, como se chamará ela, como será chamada dentro de casa, de onde terá vindo, como terá conseguido esse religioso trabalho.

E a propósito, quem será esse rapazinho vestindo camiseta de mangas longas, apoiado em uma muleta, a perna direita envolvida por uma bota escura, que permanecerá ad infinitum ensaiando, com a perna esquerda, o primeiro passo para entrar no Mercado, cuja fachada você fotografa agora.

Você passa veloz outras fotos na tela e pensa: de qual país terá vindo essa família oriental, parada às suas costas na selfie, igualmente admirando o repuxo d´água no lago. E a menina que cruza a rua de pedra, em uma bicicleta, olhos fixos à frente, levando uma cesta vermelha cheia de pães, como nas melhores imagens publicitárias, para onde estará indo, filha de quem ela será.

Aviões traçaram um X de vapor no céu do mais puro azul. Quando você registra esse momento, lá estão quatro pessoas, debruçadas sobre uma amurada, apontando para o perfil azulado das montanhas distantes. Quem serão eles, você se questiona. O que vieram buscar aqui. Uma mulher empurra o carrinho com o bebê adormecido, nas proximidades de uma estação de trem de beleza arquitetônica incomum, e você pensa: quem os esperará na volta para casa, a qual rotina irão obedecer.

Você quer preservar o encanto das casas de madeira, erguidas há séculos na ruazinha estreita, em uma cidade na fronteira entre Alemanha e França, e finda capturando um turista de boné azul e camisa amarela, acompanhado por uma mulher loura, ambos usando headphone, ambos olhando para você como se estivessem sendo vítimas de uma invasão de privacidade, em local tão público.

Surge uma imensa arcada, ladeada por colunas altíssimas e por parede com afrescos, narrando uma história romântica. As curvas sucessivas da arcada entraram para seu álbum digital, trazendo junto um homem de boné e bermuda rosada, a admirar as pinturas, indiferente ao olho curioso do seu aparelho celular. Menos mal.

Mais uma cidade na Alemanha, a mesma onde o filósofo Emanuel Kant residiu durante toda a sua vida. Apesar da capa apropriada, você está molhada da chuva, seus pés mergulharam muitas vezes nas inevitáveis poças d´água, mas você sorri para a foto e ganha a seu lado um senhor calvo, sob um gigantesco guarda-chuva, no ato de envolver o pescoço em um cachecol xadrez.

Quem são essas pessoas, você volta a se indagar. Quem serão esses ilustres desconhecidos, esses intrusos que entram de suas fotos e vídeos a dentro, passando a fazer parte de memórias que pertencem a você.

Cada um deles tem uma história: a mulher diante do Office de Tourisme em Estrasburgo, cidade da Alsácia, região dividida, que em menos de 70 anos pertenceu alternadamente à França e à Alemanha, quem será essa mulher que olha para o chão, talvez a imaginar se novas mudanças de nacionalidade estarão a caminho.

Aquele par, que deve ser de pai e filho, pelo recorte idêntico dos queixos em perfil, aquele par entretido na cidade de Koblenz, ou Coblença, uma daquelas cidadezinhas cujo nome você certamente esquecerá, a gravar em vídeo, de ângulo oposto ao seu, o tranquilo encontro dos rios Mosela e Reno – o primeiro trazendo o perfume dos vinhedos do nordeste da França, o outro atravessando a Europa de Norte a Sul, uma estrada líquida a oferecer suas águas ao transporte de turistas e de cargas pesadas. De onde terão vindo.

E durante todo esse tempo, enquanto você se ocupa com pensamentos tão desnecessários, não sai de sua cabeça uma derradeira pergunta: em quantas fotografias, em quantos vídeos, em quantas câmeras alheias você também terá sido registrado, flagrado, levado para casa por visitantes que, a essas horas, podem estar se interrogando sobre você, e sobre sua invasiva e evasiva presença nas imagens deles?

Leia as duas crônicas que completam a trilogia
+ Álbum de viagem I
+ Álbum de viagem III

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