A Teoria da Velocidade da Propagação do Boato; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Abrigo central em 1949. Fervilhando de pessoas e boatos. Provavelmente, em sua inauguração. A imagem pertence ao acervo do arquiteto Delberg Ponce de Leon, projetista em parceria dom o arquiteto Fausto Nilo da versão atual da Praça do Ferreira.

Por Paulo Elpídio de Menezes Neto
Articulista do Focus 

Antes, bem antes do Abrigo Central e das redes sociais, a Praça do Ferreira já exercia influência respeitada na elaboração da “opinião” sobre fatos da atualidade e sobre versões remanescentes de episódios históricos da Cidade, nem sempre forrados de veracidade. Eram os chamados rumores, boatos, para melhor entendimento de um processo prodigioso de conversão da mentira em verdade. Da expectativa em fato real.

Ali ficava, na tradição do logradouro que recebeu a designação de praça “do Ferreira”, um famoso Boticário que exercia a sua farta experiência de farmacêutico, Boticário, como chegou até nós, aplicado manipulador de fórmulas e meizinhas.

O Café Globo ficava na esquina da rua Guilherme Rocha, em frente à “Rotisserie”, casa de jogos e de bilhar, e de de um café igualmente famoso. Havia outros, bem sabemos, e não haveria espaço para acolhê-los aqui nestes registros secundários, tomados de empréstimo a terceiros…

René Paiva Dreyfuss, batizado com o nome ilustre, em homenagem ao oficial judeu condenado por falsa acusação, era advogado, figura popular entre advogados e frequentadores do café Globo.

Do outro lado da praça, após o prédio da Intendência, ficava a Livraria Imperial, de Clóvis Mendes, frequentado  por um aguerrido grupo de intelectuais, “habitués” de porta de livraria. Já descrevi em livro publicado recentemente este tipo de personagem [Conversa de Livraria], o frequentador de livrarias, os que pouco leem e raramente compram um livro.

René Paiva Dreyfuss era um observador atento das coisas e das suas circunstâncias; valiam-no as boas relações e um apurado sense of humour, como se dizia, entre intelectuais, por aquele tempo. Trabalhava bem a ironia: ai de quem não risse das suas boutades, deitava um olhar severo, a fuzilar o incauto desatento.

Não tardou, construísse uma hipótese de estudo sobre o boato e como ele se propaga entre “expositores” e “receptores”, como haveria de cunhar os produtores/consumidores de informações, anos depois, Roland Barthes.

Propunha-se a fixar a velocidade do deslocamento desde o ponto da sua criação à chegada aos ouvidos do recipiendário. Anunciou que usaria algumas fórmulas da física moderna. Talvez necessitasse de recorrer à física quântica que começava a ganhar prestígio no círculo privado de Einstein… Assim o fez.

Algum tempo transcorrido, empenhado em equações suspeitas e no desenvolvimento de fórmulas complexas, René Paiva Dreyfuss anunciou que levaria o relatório final da sua pesquisa aos inquilinos da Livraria Imperial.

La chegou; esperavam-no impacientes e cheios de curiosidade epistemológica, os de sempre, Martinz de Aguiar, Pedro Sampaio, João de Deus Cavalcante, Raimundo Girão, Gomez de Matos, Quintino Cunha e o padre Quinderé.

René Paiva Dreyfuss revelou, como se estivesse perante o júri, em julgamento histórico, que o boato, formulado no Café Globo a uma hora dada levaria 123 segundos para atravessar a praça, deslocando-se pela rua Guilherme Rocha, a uma velocidade média de 5 passos a cada 10 segundos, não houvesse intercorrência de fato inesperado, pedido de esmola ou encontro fortuito com interlocutor insistente.

Aproveitou a oportunidade o pesquisador René Paiva Dreyfuss, para esclarecer que a velocidade do boato não é unívoca e genérica. Pode correr em várias direções, na dependência da esperteza do seu “condutor”. Em algumas cidades ou em outros países, o boato pode deslocar-se com maior velocidade. O boato político, assim os concernentes a suspeitas de infidelidade ou traição podem alcançar, entretanto, velocidade superior, afirmava o ilustre causídico com a enérgica voz dos estudiosos.

A toda teoria, contemporizava René Paiva Dreyfuss, correspondem regras e exceções, verdades e mentiras, experimentos e criatividade. É da natureza dos homens. E das mulheres, também.


Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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