As voltas que a pedagogia dá; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Meio século atrás, na escola média, no curso primário, que era assim que se chamava esse nível de aprendizado, estudar geografia (e não só ela) era um martírio.

Tirei certa vez nota abaixo do desejável em geografia porque não fui capaz de declinar os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas. Houve tempo que sabia de cor, por obrigação, todos os afluentes do velho Chico — e do Amazonas, a maior parte das designações em língua autóctone…

Nos estudos de História, assustavam os alunos as datas e os nomes dos figurantes, guerreiros e nobres, revolucionários e grandes homens e grandes mulheres.

Era uma pedagogia voltada para a memorização do conhecimento. Descobriram, muito tempo depois, que o ensinado e decorado não oferecia nenhuma serventia. Nem teórica, nem prática.

Em relação à História, a École des Annales fez prescrever a cultura da memória em favor do conhecimento crítico e analítico. Foi quando a meninada começou a aprender e a pensar sobre fatos e a fazer certas associações inteligentes — na escola. O que não impediu, entretanto, que alguns historiadores resistentes persistissem na preservação de datas, nomes e, na geografia, dos afluentes, das montanhas e dos acidentes ditos geográficos.

Jules Ferry foi um advogado, jornalista, diplomata e político francês. Republicano, maçom, positivista e anticlerical, foi o ministro da educação que tornou a escola francesa laica e republicana.

Na França, Jules Ferry, ministro da educação nacional, tirava o relógio do bolso e afirmava, com ares de ganhador:  “ — Neste exato momento, em toda a França, os alunos de geografia do primeiro ciclo estão tendo aula do ponto 8, sobre os afluentes do Loire!”

O estudo era uma atividade mimética, retórica, durante o qual de tudo se recolhia e pouco se aprendia. Inutilidades que davam a impressão aos pais de boa fé que os filhos estavam a aprender coisas importantes — e úteis.

Alguns amigos, estudantes de medicina, tinham pavor da disciplina Anatomia. Nervos e músculos dos braços, do pescoço e das pernas a decorar na sua designação cientifica, eram uma tortura que sequer ocorrera ao Santo Ofício de Torquemada praticar para a salvação das almas dos corpos ímpios dos herejes…

As mudanças entretanto, foram tantas e tamanhas neste entretempo que o conhecimento tornou-se um risco para jovens adolescentes nas mãos de mestres-escola adestrados nas artes da dialética.

Para muitos a função social da escola não está na transmissão do conhecimento, na sua elaboração e no seu compartilhamento. Está em criá-lo, a partir de realidades construídas e em dar-lhe destinação merecida entre os agentes das grandes mudanças anunciadas. A de um “brave new world” glorioso pelo qual todos esperam e aguardam.

Já não se decoram mais os afluentes dos rios nas salas de aula. Trata-se agora da luta de classes e sobre as escolhas de gênero. Neste desafio heróico, nem todos os livros e seus autores são benvindos no ambiente escolar.

Na escola, a progressão realiza-se automaticamente para não trazer traumas aos que possam ser reprovados por excesso de exigência didatica ou do currículo.

Nas penitenciárias, também. O bom comportamento e a leitura de livros, sejam quais forem eles, menos os de autores neoliberais, abreviam anos de penas acumuladas. Algumas páginas de leitura são suficientes para abrir a oportunidade de progressão para qualquer infrator da lei ou criminoso condenado.

O saber liberta, dizem os pedagogos liberticidas…

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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