Velhos casais. Por Angela Barros Leal

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Por Angela Barros Leal
Articulista do Focus

O casal brigava, do nascer do sol ao apagar das estrelas. Dia de sol, noite de chuva, dia útil ou santificado, o casal brigava. Melhor dizendo: ela brigava. Ele ouvia, e ouvia pacientemente, de início com uma certa dose de revolta, de inconformidade que, com o tempo, se transformaria em indiferença.

Todo santo dia a mulher o fazia lembrar da suposta falta de inteligência dele, da carência de memória para fatos do interesse dela, do desleixo dele consigo próprio, da ausência de qualidades físicas – ou mesmo da feiúra (palavra que ela não temia utilizar) com que Deus o dotara. O outro, o marido da amiga, ou o conhecido que os visitava em casa, o desconhecido com quem cruzavam na rua, e cumprimentava o casal, o primeiro namorado dela, cuja foto aparecia nos jornais, alardeando fama e fortuna, o outro era jogado na cara dele como a antítese do que ele era.

Nunca dissera uma única palavra em resposta. Despedia-se dela, de segunda a sexta-feira, sem bater a porta da frente da casa, comprada com o dinheiro dele. O muro do desprezo erguido lá dentro tinha servido de justificativa para ele ficar mais tempo lá fora. Assim, ele se inscrevera em cursos noturnos, prolongando a hora do retorno, e participara de concursos públicos que o permitiram subir na carreira de advogado.

Com o passar do tempo, com o suor do seu esforço, com as boas relações que fizera na sua área de trabalho, por ser um homem calmo e conciliador, chegou ao honroso cargo de juiz federal. A mulher comprava coisas, se enfeitava, se embelezava ainda mais – pois ela era, sim, apesar de todo o rancor que trazia por dentro, uma bela mulher – e nunca dera a ele uma palavra de elogio, ou de gratidão.

Assim, não houve espanto na família quando a última filha, a caçula, casou, saiu de casa e deixou os pais enfim sós, apressando com isso o desfecho da história.

Ele era um homem metódico. Uma semana depois da partida da filha, a casa pacificada dos ansiosos preparativos para a festa do casamento, a mulher descansando à sua frente, as pernas sobre uma banqueta, ele entrou em casa com uma mala nova. Não sabia onde a esposa guardava as malas, e não tinha desejado perguntar. Diante do silêncio dela, abriu a mala sobre a cama do casal, e colocou quase todas as suas roupas, seus paletós, seus sapatos sociais, as gravatas, e alguns livros.

Deixava tudo para trás, com ela e para ela, disse ao se despedir, aliviado com o silêncio, incluindo a casa e o carro. Ia auxiliá-la mensalmente com as despesas da casa. Voltava a ser solteiro, indo morar sozinho em um apartamento perto do mar, que tanto o encantava. A mulher não demostrara sentimento, o rosto, ainda belo, uma pedra de gelo.

Meses depois ele convidou o cunhado para um almoço em um clube da sociedade. Já estava à mesa quando o cunhado chegou. Antes que trocassem o primeiro cumprimento, as lágrimas já escorriam pelo seu rosto molhando a lapela do paletó, os punhos da camisa, o guardanapo sobre a mesa.

O cunhado o tranquilizou. Havia feito a escolha certa, ao sair de casa. A irmã era assim mesmo, tinha esse mau gênio desde criança, ele aguentara heroicamente por muito tempo, mais do que qualquer um dos irmãos dela pudesse acreditar que alguém aguentaria. Que ele seguisse em frente, com a consciência tranquila, e refizesse a sua vida.

Duas décadas se passaram. No dia em que se aposentou, ele se viu dirigindo o carro para sua antiga casa, quase sem sentir. Estacionou, desceu, bateu na porta e entrou. Nada mudara lá dentro. Sentou à mesa, no mesmo lugar que ocupava antigamente, e perguntou com autoridade à doméstica: “O café está quente ou frio?”.

A esposa (pois não haviam chegado a formalizar um divórcio) veio da cozinha trazendo o café. Ele reclamou que estava frio. Ela sentou no mesmo lugar em que sempre sentara, e o tratou com cerimônia. “O Doutor reclamando, como sempre” – ele ouviu a ironia da voz dela, enquanto aspirava o aroma do café. Permaneceram o que pareceram horas em um silêncio sem peso e sem forma.

Ela não estava mais tão bonita, era evidente. O tempo marcara o rosto dela, aprofundando as rugas, afrouxando a pele, puxando para a superfície as veias e tendões. Por entre o vapor do café, ele observou que estavam agora mais parecidos: ele, com sua reconhecida feiura equilibrada pelo tempo; ela, aproximando-se dele na irmandade da velhice.

Até hoje ele continua indo à casa dela, antes do almoço, com a mesma pergunta: “O café está quente ou frio?”. Ele descansa no sofá, ela dorme no quarto. Assistem novelas, o noticiário da TV, jogam damas em um tabuleiro antigo. Nunca chegaram a conversar sobre as brigas que tiveram, nem a discutir o abandono. Assim como nunca deixaram de se tratar com formalidade e respeito na hora da despedida – Doutor Mendes, Dona Maura –, como me garantiu quem me contou essa história sobre um desses velhos casais.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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