Ajuda sem fronteiras. Por Angela Barros Leal

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A sala destinada à realização do exame de motorista estava lotada. Todos os computadores sobre a bancada única, em formato de U, se encontravam ocupados por pessoas tentando responder, corretamente, as perguntas sobre a legislação do tráfego no estado de Minnesota, Estados Unidos.

O inverno tinha sido intenso, mesmo para os padrões locais. A temperatura nos termômetros marcara 22 graus negativos, com sensação térmica abaixo disso. Vinda de um clima tropical, no qual 30 graus positivos se sucedem a outros 30 graus positivos, eu havia hibernado por uns bons dois meses no minúsculo apartamento alugado, no Centro de Mineápolis, estado de Minnesota, até chegar o mês de abril, quando por fim nos inscrevemos para prestar o dito exame.

E assim conheci meu primeiro somaliano.

É verdade que muita coisa pode faltar para a Somália – inclusive, e por longo tempo, um Governo devidamente constituído – porém não faltam gentílicos, as denominações para os que tiveram o destino de nascer por lá. Podem ser chamados somalianos, somalienses, ou apenas somalis, como usam os norte-americanos.

Mineápolis, logo fiquei sabendo, é o principal abrigo dos que fogem da interminável guerra civil naquele país. Marca presença como Cidade Santuário, abrigando esses e outros refugiados, provindos ou não da região conhecida como o Chifre da África, gente que busca o que todos nós buscamos: melhores condições para a sobrevivência.

A cidade conta hoje com cerca de 64 mil somalianos, residindo principalmente no bairro Cedar-Riverside, próximo da Universidade, apelidado de Pequena Mogadíscio, nome da capital da Somália. No roteiro do trem urbano, entre a Universidade e o downtown de Mineápolis, nos habituamos ao embarque e desembarque de homens e mulheres usando o tradicional traje muçulmano, que encobre todo o corpo.

E era ao lado de dois desses homens, envoltos em mantos, que estava o único assento desocupado na sala, com um computador esperando ser iniciado.

Fui respondendo às perguntas postas na tela, dentro do que havia estudado no código de trânsito local – até empacar em uma questão inesperada, para além da circulação de veículos: qual a capital do estado de Minnesota.

Como era possível que eu estivesse há dois meses em uma das Twin Cities, as cidades gêmeas siamesas – Mineápolis e Saint Paul, unidas (ou separadas) por uma ponte sobre o rio Mississipi – e não me houvesse interessado em saber qual delas seria a capital.

Demorei uns bons minutos olhando para a tela, revirando os fichários cerebrais, quase decidindo em fazer o par ou ímpar entre ambas, até escutar, no silêncio da sala, um leve cochicho vindo do meu lado direito: Saint Paul.

Era um dos somalis me auxiliando.

Desde que eu sentara, e cumprimentara ambos os vizinhos, justamente esse, o da direita, não se mexera em sua cadeira. Os braços repousavam sobre as coxas, o olhar se mantivera fixo na tela do computador, mas a voz desencarnada repetiu baixinho: Saint Paul.

Por qual motivo sobre a Terra aquele cidadão ia querer auxiliar uma completa desconhecida, correndo o risco de se ver impedido de prosseguir no teste, se não fosse por um impulso incontrolável de solidariedade humana.

Ele e eu, lado a lado, vindos de Continentes diferentes do planeta, iluminados por nossas telas, estávamos unidos naquele instante pelo instinto comum de um bom desempenho na avaliação. Assim, teríamos acesso a uma carteira de motorista: eu, para circular a passeio na cidade, na qual passaria apenas 1 ano; ele, quem sabe, para assumir uma profissão rentável e realizar seu American Dream.

Fato é que agradeci discretamente, com um aceno de cabeça associado a uma tosse forçada, e cravei a resposta que ele me dera. Concluí o teste, saí da sala e ele continuou sentado, imóvel como estava, não sei se para ajudar ao próximo vizinho, ou se para que alguém o auxiliasse.

Fui aprovada. O destino, porém, usou de justiça poética para que eu, por não ter sido tão honesta quanto deveria, fosse reprovada no exame de direção. As coisas desse mundo.

Não sei que fim levou o indutor da transgressão. De qualquer forma, daí em diante passei a cumprimentar efusivamente todos os somalis com os quais cruzava caminho, vendo em cada um deles um Bom Samaritano, um exemplo de como as fronteiras se esvaem quando se deseja auxiliar o outro – ainda que de um jeito um tanto quanto questionável…

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder 

 

 

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