No girar do mundo. Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Com grande frequência, minha filha – que é professora universitária em Sidney, Austrália – me envia pelo WhatsApp alguns links sobre assuntos que ela julga do meu interesse. Como de fato costumam ser. Na minha caixa de mensagens ela deposita temas curiosos, surpreendentes, divertidos, aos quais eu possivelmente não teria acesso sem o clipping eletrônico feito por ela em meu favor.

Antes da internet, havia empresas que prestavam esse tipo de serviço. Encarregavam-se de buscar e localizar – em todos os jornais do País, até mesmo nas publicações de pequenas cidadezinhas –, determinados temas, à escolha do freguês. O eixo da negociação estava em encontrar referências ao contratante, fosse ele ou ela celebridade, ou apenas alguém interessado em chegar lá. As matérias eram recortadas do jornal, coladas em folhas soltas, com o timbre da empresa, encaminhadas ao destinatário pelos Correios, e estava cumprida a missão.

O papel, rei do século passado, deu lugar ao clipping eletrônico, enriquecido pelo monitoramento e análise das informações, abrangendo a totalidade das mídias – o que minha filha faz para mim por vontade filial.

O que me interessa, e que ela me encaminha, são notícias quase sempre de total inutilidade, do ponto de vista do utilitarismo filosófico, ausentes delas qualquer contexto prático. São nada mais do que informações aleatórias, sem causas nem consequências. São curiosidades desse mundo que nos cerca, e que não cansa de nos surpreender.

Como, por exemplo, a existência de um apartamento, em Paris, alugado por valor equivalente a R$ 3 mil mensais, apesar de medir apenas 9m². Não há nada que eu possa fazer com tal conhecimento, que giro nas mãos e na mente, exceto a surpresa de ver e ouvir, no vídeo que acompanha a notícia, o orgulhoso relato do ser humano que há dois anos tem naquele endereço o seu lar.

Ou como a notícia da identificação dos culpados pelo furto de uma caixa forte em Antuérpia, na Bélgica, cidade onde moramos durante um ano, e onde presenciamos os extremos cuidados com a segurança nos quarteirões ocupados pelos profissionais especializados em lidar com diamantes. A caixa forte furtada continha cem milhões de dólares em joias. O crime, executado em 2003, se viu desvendado graças à simples queixa de alguém sobre o acúmulo de lixo em um terreno desocupado.

Outro dia ela me enviou uma curiosidade sobre a tradição do peixe frito servido na Inglaterra como petisco, acompanhado da batata frita. Teria se originado ainda em 1860, com os judeus que fugiam da Inquisição no século XVI, e que traziam consigo o hábito de fritar o peixe na sexta-feira para saboreá-lo durante o sabá do dia seguinte.

Particularmente interessante foi um tema que já serviu de roteiro a vários filmes hollywoodianos, românticos ou assustadores: o debate científico sobre uma eventual mudança de personalidade em pacientes que haviam recebido transplante cardíaco, e que passaram a experimentar mudanças de comportamento, ou mesmo a assumir traços característicos do doador. Uma questão de memória celular, explanada aos leigos na revista Science Direct.

Um dos clippings me fez ciente de qual teria sido o ruído mais alto jamais escutado no mundo (o da explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883); outro sobre o chamado “Pé de elefante”, considerado o mais perigoso objeto sobre a Terra: o amálgama disforme surgido da fusão do reator 4 da usina de Chernobyl, ao se misturar ao concreto, aço e areia, num conjunto extremamente radioativo).

Como não poderia deixar de ser, ela me coloca a par de uma “pegadinha” tipicamente australiana, demonstrando que o bom humor é universal. Costumam eles atemorizar os visitantes, ou os recém chegados, com os riscos de um perigoso animal da família do coala. Ao contrário desse doce animal, símbolo da Austrália, o Drop Bear seria uma suposta fera carnívora, dotada de incontrolável agressividade.

Segundo o clipping, o monstro pesaria 120 quilos, distribuídos em 1,30m de altura. De de seu habitat, nos galhos das árvores, despencaria sobre a cabeça dos desavisados passantes, resultando em ferimentos por vezes fatais. A proteção recomendada aos turistas pelos sorridentes e enganadores australianos seria enfiar garfos no cabelo, ou esfregar pasta de dentes atrás das orelhas. Tudo falso, em nome do riso cúmplice dos nativos.

Como falei, nos clippings recebidos não há nada que influa no girar do mundo, cumprindo com o que dizia o escritor e jurista Fran Martins. Exceto alimentar minha vã curiosidade e minimizar nosso distanciamento geográfico.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

MAIS LIDAS DO DIA

Atlas: Paes lidera, mas Douglas reduz diferença no Rio

Atlas/Estadão: Tarcísio lidera corrida ao Governo de SP; Flávio também aparece à frente de Lula no Estado

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

PIB do Ceará cresce 2,21% no segundo trimestre e supera média nacional

Desemprego cai para 5,3% e atinge menor nível para trimestre até agosto

Dossiê de ex-sócio expõe Flávio Bolsonaro: festas com mulheres, Rolex e pressão sobre o STF

Juros do crédito para famílias sobem para 61,7% ao ano em agosto, diz BC

Bets: somos livres? Por Aline Ponte

Atlas/Focus: No Ceará, Lula cresce e chega a 57,7%; Flávio marca 32,2%