Com grande frequência, minha filha – que é professora universitária em Sidney, Austrália – me envia pelo WhatsApp alguns links sobre assuntos que ela julga do meu interesse. Como de fato costumam ser. Na minha caixa de mensagens ela deposita temas curiosos, surpreendentes, divertidos, aos quais eu possivelmente não teria acesso sem o clipping eletrônico feito por ela em meu favor.
Antes da internet, havia empresas que prestavam esse tipo de serviço. Encarregavam-se de buscar e localizar – em todos os jornais do País, até mesmo nas publicações de pequenas cidadezinhas –, determinados temas, à escolha do freguês. O eixo da negociação estava em encontrar referências ao contratante, fosse ele ou ela celebridade, ou apenas alguém interessado em chegar lá. As matérias eram recortadas do jornal, coladas em folhas soltas, com o timbre da empresa, encaminhadas ao destinatário pelos Correios, e estava cumprida a missão.
O papel, rei do século passado, deu lugar ao clipping eletrônico, enriquecido pelo monitoramento e análise das informações, abrangendo a totalidade das mídias – o que minha filha faz para mim por vontade filial.
O que me interessa, e que ela me encaminha, são notícias quase sempre de total inutilidade, do ponto de vista do utilitarismo filosófico, ausentes delas qualquer contexto prático. São nada mais do que informações aleatórias, sem causas nem consequências. São curiosidades desse mundo que nos cerca, e que não cansa de nos surpreender.
Como, por exemplo, a existência de um apartamento, em Paris, alugado por valor equivalente a R$ 3 mil mensais, apesar de medir apenas 9m². Não há nada que eu possa fazer com tal conhecimento, que giro nas mãos e na mente, exceto a surpresa de ver e ouvir, no vídeo que acompanha a notícia, o orgulhoso relato do ser humano que há dois anos tem naquele endereço o seu lar.
Ou como a notícia da identificação dos culpados pelo furto de uma caixa forte em Antuérpia, na Bélgica, cidade onde moramos durante um ano, e onde presenciamos os extremos cuidados com a segurança nos quarteirões ocupados pelos profissionais especializados em lidar com diamantes. A caixa forte furtada continha cem milhões de dólares em joias. O crime, executado em 2003, se viu desvendado graças à simples queixa de alguém sobre o acúmulo de lixo em um terreno desocupado.
Outro dia ela me enviou uma curiosidade sobre a tradição do peixe frito servido na Inglaterra como petisco, acompanhado da batata frita. Teria se originado ainda em 1860, com os judeus que fugiam da Inquisição no século XVI, e que traziam consigo o hábito de fritar o peixe na sexta-feira para saboreá-lo durante o sabá do dia seguinte.
Particularmente interessante foi um tema que já serviu de roteiro a vários filmes hollywoodianos, românticos ou assustadores: o debate científico sobre uma eventual mudança de personalidade em pacientes que haviam recebido transplante cardíaco, e que passaram a experimentar mudanças de comportamento, ou mesmo a assumir traços característicos do doador. Uma questão de memória celular, explanada aos leigos na revista Science Direct.
Um dos clippings me fez ciente de qual teria sido o ruído mais alto jamais escutado no mundo (o da explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883); outro sobre o chamado “Pé de elefante”, considerado o mais perigoso objeto sobre a Terra: o amálgama disforme surgido da fusão do reator 4 da usina de Chernobyl, ao se misturar ao concreto, aço e areia, num conjunto extremamente radioativo).
Como não poderia deixar de ser, ela me coloca a par de uma “pegadinha” tipicamente australiana, demonstrando que o bom humor é universal. Costumam eles atemorizar os visitantes, ou os recém chegados, com os riscos de um perigoso animal da família do coala. Ao contrário desse doce animal, símbolo da Austrália, o Drop Bear seria uma suposta fera carnívora, dotada de incontrolável agressividade.
Segundo o clipping, o monstro pesaria 120 quilos, distribuídos em 1,30m de altura. De de seu habitat, nos galhos das árvores, despencaria sobre a cabeça dos desavisados passantes, resultando em ferimentos por vezes fatais. A proteção recomendada aos turistas pelos sorridentes e enganadores australianos seria enfiar garfos no cabelo, ou esfregar pasta de dentes atrás das orelhas. Tudo falso, em nome do riso cúmplice dos nativos.
Como falei, nos clippings recebidos não há nada que influa no girar do mundo, cumprindo com o que dizia o escritor e jurista Fran Martins. Exceto alimentar minha vã curiosidade e minimizar nosso distanciamento geográfico.
