Namoro de fusquinha. Por F J Caminha

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Teve uma época que o Fusca não era apenas um carro, mas um verdadeiro símbolo de liberdade e romance. O meu Fusquinha era como se fosse um passaporte para o mundo das fortes emoções. Se você já namorou em um deles, já está denunciado que tem mais de quarenta anos de idade.

Meu primeiro veículo foi fusquinha verde 1300cc de farol selado em inglês, “Sealed Beam”. Aqui a gente aportuguesou com nome de farol “Silibim” e depois chegaram os mais modernos e potentes com os faróis traseiros mais largos e maiores que foram apelidados de “Fafá de Belém”, em alusão aos extraordinários seios da extraordinária cantora paraense.

Algumas memórias emergiram a bordo dele, especialmente, as ações libidinosas que realizei apaixonado pela namorada. A cidade de Fortaleza era segura, até tinha placas que a prefeitura disponibiliza em algumas avenidas com a inscrição:

“CARONA AMIGA”

Muitas vezes estacionei o veículo em um canto esquecido, onde a copa das árvores filtrava a luz da lua e o vento forte parecia sussurrar gemidos de amor em nossos ouvidos. A calor emanado das respirações ofegantes e os suores dos corpos embasavam os transparentes vidros transformando o cenário ainda mais romântico, onde o beijo roubado era marcado pelo frio na barriga e o coração acelerado. A alavanca do câmbio era o cúmplice que dificultava as ações no espaço tão estreito quanto os limites da liberdade que o tribunal da moral interna permitia. A suspensão balançava no ritmo do prazer. Foram tantas emoções e posições que até pensei, na época, escrever um manual:

“AS MIL E UMAS POSIÇÕES DE COMO NAMORAR NUM FUSCA”.

Era um contorcionismo a dois, para encaixar a adequada posição e viver a melhor experiência libidinosa diversa da conjunção carnal nos bancos estreitos e não reclináveis. A gente apreciava a privacidade das ruas escuras nos locais mais desérticos. Muitas opções estavam disponíveis na bucólica cidade, como praia do Futuro, a lagoa do Opaia pertinho do aeroporto, uma rua escura vizinha a casa da namorada, ou mesmo no cinema “drive-in”, e caso necessitasse de água ou lanche bastava um sinal de luz farol que a garçonete vinha te atender.

Quando parei o “Silibim” no ar livre em frente a parede branca que servia de tela, a namorada pediu para ligar o rádio e sintonizar na frequência indicada para ouvir o som do filme. Envergonhado eu respondi:

– O carro não tem som, mas é posso cantar para você.

Ela imediatamente respondeu:

– Nesse caso me cante.

Aviso que na época não existiam motéis, ficar nos carros ou dançar coladinho nas festas de “luz negra” eram as opções mais disponíveis. Entre beijos e pinadas os jovens amantes viviam a eternidade em cada pequena aventura e assim expressavam a sexualidade.

Hoje a noite meu filho chegou a noite em casa e me apresentou uma amiga e foi para o quarto. No dia seguinte eu perguntei:

– Era sua namorada?

– Não papai, só uma amiga que conheci no “Tinder”.

– Mas, você dormiu com ela.

– Qual o problema?

– Papai, eu nunca fui para cama com inimiga.

– Namorar, é muito comprometedor.

Caro leitor, o mundo mudou e o amor de Fusquinha só balança agora na suspensão das minhas memórias.

Francisco Caminha é escritor, advogado, especialista em Ciência Política e servidor público. Foto: Divulgação

 

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