Pê ésse dê bê … o quê? Por Emanuel Freitas

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Aécio Neves, Tasso Jereissati e Fernando Henrique Cardoso: a social-democracia brasileira.

Fundado a partir dos “quadros” do então PMDB, lá em 1988, e já se lançando nacionalmente na eleição de 1989 com Mário Covas, tendo governado o Brasil de 1995 a 2002 e duelado com o PT por quatro eleições presidenciais consecutivas, onde está hoje o PSDB, partido que hegemonizou a voz da oposição por quase duas décadas?

Tendo como filiados desde políticos importantes do Nordeste e do Sudeste, técnicos responsáveis por “modernizações” nos estados, artistas e até o “príncipe da Sociologia” (FHC), o PSDB, hoje, parece jazer no esquecimento ou na irrelevância. Discute-se, inclusive, sua “federação” com outros partidos (MDB ou PSD, duas “raposas” bastante “astutas” no que concerne ao jogo político), o que significaria, para além da sobrevivência de mandatos, o apagamento da sigla: P.S.D.B. A voz levantada em defesa da permanência da existência do partido já não é mais a de FHC, que tanto ocupou as páginas de jornais com textos e entrevistas no período lulo-dilmista; foi Aécio Neves quem ressurgiu.

O partido liderou a oposição nos governos petistas, mostrando-se como “o” projeto viável a fazer frente ao que se desenhava em Brasília. De 2006 a 2014 a grande batalha partidária se dava em torno da escolha do nome “tucano” a duelar contra Lula ou Dilma. A imprensa acompanhava de perto. Eram tempos de outra “polarização”, sadia, democrática. Na verdade, ali se tratava, de fato, de uma “polarização”: eram dois partidos democráticos que se enfrentavam dentro das regras do jogo, e tendo a democracia como norte.

Tudo começou a mudar com o resultado eleitoral de 2014 e seu questionamento, feito pelo próprio PSDB. O sistema eleitoral começava a ser questionado e os radicalismos começavam a grassar.

Os tucanos não deram mostras de serem “realistas”, fazendo com que os “mais realistas que o rei” os expulsassem do jogo político. Como esquecer a cena de Aécio e Alckmin sendo vaiados nos atos contra Dilma em 2016?

Dali a alguns meses, a eleição de Dória, e sua consequente hegemonia dentro do partido, lançariam a oposição brasileira num antipetismo radical que os tucanos não deram conta de encenar.

Foram fragorosamente derrotados em 2018. Chegamos ao estado atual, de necessidade de conjunção da sigla à outra.

Vinte anos atrás, no escândalo do mensalão, eram vários os discursos tucanos que vaticinaram o “fim do PT”. O tempo se mostrou duro aos enunciadores daquelas profecias. O PT voltou à presidência e, vejam só, no Ceará, está no governo pela terceira vez.

Talvez em política não se deva profetizar. Bicos longos demais podem prejudicar o jogo comunicativo da política.

As novas gerações não conhecem a história do PSDB. “Tucanos”, para elas, significará apenas a expressão para nomear aves de nossa vastíssima fauna. Nem de longe lembrará atores importantes de nosso jogo político.

No Ceará, fala-se no nome do ex-prefeito Roberto Cláudio para manter aceso o vigor (qual?) da sigla. Pode-se cair no mesmo erro nacional: o de traçar o perfil do partido como um “antipetismo”. Não deu certo lá – Bolsonaro encenou melhor; poderá, tudo indica, não dar certo aqui, temos um Bolsonaro para chamar de “nosso”.

Emanuel Freitas da Silva é articulista do Focus Poder, professor adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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