Amor de um onírico carnaval; Por F J Caminha

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Foto: Pollyana Ventura

Minha mãe contava a idade pelo período de Carnaval. Ela me dizia assim:

– Meu filho, já vivi muitos carnavais.

Com poucos ou muitos carnavais, todos nós temos uma história para contar. Como já vivi muitos Carnavais, registro uma da década de 70, berço de minha adolescência, onde uma das melhores festas do Ceará acontecia na bucólica e paradisíaca cidade praiana do Paracuru, distante cerca de 90 km de Fortaleza. Avalanches de famílias ocupavam e superlotavam todas as casas de veraneio disponíveis, os nativos alugavam suas casinhas para acolher a multidão que ia brincar o Carnaval. Jovens aventureiros invadiam a cidade sem eira nem beira, sem mesmo saber onde dormir.

Os bailes mais organizados aconteciam no salão do clube social onde as famílias das elites mais abastadas organizavam os bloquinhos com fantasias que as identificavam. A banda tocava as tradicionais marchinhas de carnavais desde o “Ó Abre Alas” de 1899, a Mamãe Eu Quero Mamar” de 1937 e muitas outras. Ainda lembro de um bloquinho de meninas vestidas com maiôs, maquiadas como coelhinhas e nos bumbuns fixavam-se plumas imitando rabinhos que despertavam meus olhos fazendo uma parte do meu corpo latejar bom desejos indescritíveis. Já o palco da folia popular se concentrava nas praias, em destaque na famosa barraca Ronco Mar ou na praça da Igreja Matriz onde acontecia o famoso “mela-mela”. A prefeitura disponibiliza precários carros de som para animar a festa.

Nesse período tudo era permitido, a moral e os bons costumes tiravam férias, as moças e os rapazes recatados bebiam, cheiravam “Loló”, o entorpecente caseiro feito de éter com clorofórmio, beijavam desconhecidos e pulavam para valer com as eteceteras dos pecados sexuais.

Foi nesse espírito que ele chegou de ônibus na sexta-feira, somente com uma mochila entupida de algumas garrafas de cachaça, uma muda de roupa e uns trocados no bolso. Não tinha onde ficar, esperava fazer caipirinhas e comercializar na praia. Usou da criatividade e como apelo de venda sob o sol escaldante do verão providenciou uma placa e fincou na areia no local mais movimentado com a inscrição:

VIRGINDADE DÁ CÂNCER, VACINE-SE AQUI.

As garotas que desfilavam com seus biquínis tangas riam e faziam filas para tomar a vacina que eram as caipirinhas que ele vendia, servidas em copos de plásticos e com o dinheiro arrecadado se alimentava. No final da tarde e à noite as farras aconteciam na praça católica de Nossa Senhora dos Remédios. Na primeira madrugada ele cochilou embriagado nos degraus igreja ao lado do crucifixo usando a mochila como travesseiro. Na segunda noite, já com fortes dores nas costas optou em repousar algumas poucas horas na areia do mar ao lado de uma jangada de pescador, mas a chuva forte e fria do final madrugada o despertou. Foi quando exausto fez um juramento não dormirei mais ao ar livre. Afinal, é carnaval tudo me é permitido, inclusive o que não convém.

Já no Domingo, sou aguentou ficar na praça até depois da meia noite e saiu a caminhando a esmo pelas ruas estreitas em busca de abrigo, até visualizar uma ampla casa com inúmeras redes armadas no alpendre. Na frente da residência tinha uma placa esculpida em madeira “Rancho Tamboril”. Pensou rapidamente, é aqui que vou me arranchar, saltou como um gato a baixa mureta, se enrolou em uma das redes agarrado na mochila e capotou bêbado de sono.

Na manhã seguinte, a casa vazia da noite anterior já lotada de gente quando foi despertado pelo calor do sol das quase 10 da manhã e pelas conversas dos jovens, alguns ainda acomodados nas redes. Abriu uma brechinha no manto que o acolheu, viu o movimento e pensou:

– Vou sair de fininho sem ninguém notar.

Quando saltou da rede em direção ao portão agarrado na mochila, ouviu uma voz alta de comando de uma senhora:

– Ei, rapaz, aonde pensa que vai, venha logo tomar café.

Ele virou-se assustado, mas a dona da casa pensou que ele fosse o amigo do sobrinho dela que ficara de vir. Serviu-se do café com leite, pães, ovos, cuscuz e frutas. Tomou banho com sabonete e xampu e ficou hospedado até quarta-feira de cinzas. Fez logo amizade com a turma e a noite foi com o grupo a pular o carnaval no clube chique da cidade. O penetra se deu bem quando uma das mais bonitas das coelhinhas do bloco sorriu para ela, e logo engatou-se com ela na folia do salão no sabor do sal dos suores entre beijos e abraços adornados com os confetes e tatuado pelas purpurinas da jovem coladas em seu corpo. Com uma reação química instantânea seus corações se aqueceram com o fogo do desejo. Em fuga largaram o bloco foram apressadamente para a praia se amar no costado da jangada que ele dormira ainda com o cheiro dos vestígios de sua presença pretérita. Aquela noite fora um delírio onírico sob a luz do luar, uma fantasia consumada nunca esquecida com a mais bonita coelhinha do baile.

Sua paixão de Carnaval brilhou como purpurina, mas na Quarta-feira de cinzas no dia seguinte ela sumira como confete ao vento e desapareceu definitivamente.

Francisco Caminha é escritor, advogado, especialista em Ciência Política e servidor público. Foto: Divulgação

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