Ciência em copo cheio: Por que a academia precisa sair dos muros e ir ao bar; Por Adriana Rolim

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Em tempos de desinformação
e negacionismo científico, iniciativas como o Pint of Science mostram-se não apenas relevantes, mas absolutamente necessárias. O festival, que ocorre anualmente em maio e já alcança diversos países, transforma bares e restaurantes em espaços de diálogo entre cientistas e a população, democratizando o acesso ao conhecimento científico de maneira informal, acessível e interativa.

Criado em 2013 no Reino Unido, o Pint of Science surgiu com o objetivo claro: tirar a ciência dos muros da academia e colocá-la ao alcance de todos, em ambientes onde as pessoas naturalmente se reúnem para conversar. A ideia é simples, mas poderosa: por meio de apresentações curtas, dinâmicas e compreensíveis, cientistas de diferentes áreas compartilham suas pesquisas com o público geral, incentivando perguntas, discussões e o pensamento crítico.

Em Fortaleza, o festival tem se consolidado como um espaço plural de debate e aproximação entre cientistas e sociedade. Com a participação de pesquisadoras e pesquisadores locais, os encontros atraem desde estudantes a frequentadore(a)s habituais dos bares, e pessoas curiosas sobre os mais diversos temas como inteligência artificial, mudanças climáticas, neurociência, saúde pública, entre muitos outros.

A atmosfera descontraída dos bares é estratégica. Longe do formato tradicional das salas de aula e conferências, o evento humaniza o(a) cientista e torna a ciência menos intimidadora. Assim, o Pint of Science cria um ambiente onde o conhecimento é compartilhado entre iguais, com respeito à diversidade de saberes e valorização da curiosidade como motor da aprendizagem.

Mas o Pint of Science não é apenas um evento “curioso” que une cerveja e ciência. Ele responde a uma lacuna concreta: a dificuldade da academia em dialogar com a sociedade. Ainda hoje, muito do que se produz dentro das universidades e centros de pesquisa permanece inacessível para quem está fora — seja por barreiras de linguagem, tecnicismo excessivo ou mesmo pela falta de canais abertos de comunicação.

O resultado disso é preocupante. A confiança pública na ciência é desigual e vulnerável à desinformação. Assim, eventos como o Pint of Science funcionam como pontes. Eles aproximam pessoas comuns de temas complexos, quebram o mito do(a) “cientista inacessível”, e mostram que ciência é, sim, assunto de bar — porque ciência é, sobretudo, assunto da vida.

Além disso, o engajamento público consistente contribui para democratizar a produção do conhecimento, favorecendo não apenas a compreensão, mas também a participação ativa da população em decisões que envolvem ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente. Ou seja, a ciência cidadã começa com a escuta mútua — algo que um bar cheio e um bom diálogo podem proporcionar melhor do que muitas salas de aula formais.

Claro, eventos como o Pint of Science não substituem o ensino tradicional nem a publicação científica. Mas eles complementam e ampliam o impacto do conhecimento, mostrando que a ciência pode ser plural, acessível e humana. E talvez seja exatamente esse o antídoto mais eficaz contra o negacionismo e a polarização: a proximidade.
Enquanto a academia continuar falando sozinha, perderá vozes e ouvidos. Mas quando decide escutar — e brindar junto —, abre-se à possibilidade de cumprir plenamente seu papel social. Que venham mais festivais, mais copos cheios, e mais conversas onde a ciência deixe de ser distante e passe a ser cotidiana.

Prof. Dra. Adriana Rolim,
Coordenadora do Festival Pint of Science Fortaleza, Farmacêutica, Doutora em Farmacologia. Docente e Pesquisadora da Universidade de Fortaleza.

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