O respeito, a palavra e as intenções; Por Lúcio Alcântara

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“Quod Deus vult perdere, prius dementat”, Eurípedes
[“Aquele que Deus quer destruir, tira-lhe antes o juízo”]

Os que, em plena luz do dia, manipulam as causas e as consequências das restrições tarifárias impostas pelo governo americano prestam um desserviço impatriótico ao Brasil.

A mídia, as redes sociais e os agentes públicos, com suas narrativas, em vez de esclarecer a população sobre as questões essenciais em jogo, deixaram-se dominar por impulsos ideológicos que, a médio prazo, podem frustrar negociações técnicas — a serem tratadas pela diplomacia, a supor que ela se disponha a fazê-lo.

Associar questões políticas a procedimentos fiscais para tirar destas consequências úteis proveito para propósitos ideológicos é um desrespeito à nossa inteligência e aos interesses da economia brasileira.

A política, tanto quanto a economia e a administração do Estado, quando subordinadas a questões ideológicas, comprometem seriamente a governabilidade e expõem o povo e as matrizes produtivas da economia nacional a riscos consideráveis.

Não é essa interlocução desrespeitosa — que beira a irresponsabilidade e o ridículo — entre dois chefes de Estado, marcada por opções primárias de um populismo atrasado e inconsequente, que recobrará os padrões de negociação civilizada e firme indispensáveis ao livre comércio entre nações.

O pior que nos pode acontecer, em meio a conflitos alimentados por falas desprovidas de recato e sensatez, é ver brotar um patriotismo de encomenda para ocultar as verdadeiras razões das divergências que travam o comércio e o desenvolvimento do nosso país.

Que essas patriotadas inoportunas sejam esquecidas pelos agitadores de profissão — aqui e entre os americanos — em respeito ao Brasil e aos brasileiros.

Lúcio Gonçalo de Alcântara, médico, político e escritor. Foi prefeito de Fortaleza, deputado federal, senador e governador do Ceará. É membro da Academia Cearense de Letras.

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