Os inimigos do povo são os inimigos da democracia; Por Ricardo Alcântara

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Se você se define como democrata e está vestido com uma blusa em que está escrito “Congresso, inimigo do povo”, você está precisando renovar – as ideias ou o guarda roupa.

Não tenho notícias de nenhum movimento popular contra a instituição parlamentar que tenha resultado em mais liberdade e garantias para os cidadãos.

O parlamento é o poder essencial de uma democracia porque é nele que a pluralidade se expressa de modo contínuo. Se o congresso for “inimigo do povo”, imagino então a qualidade dos “amigos”.

Ao se transformar em palavra de ordem, a ser repetida automática e irrefletidamente, a generalização é perigosa porque abre espaço para oxigenar compulsões autoritárias, contrariamente ao que se pretende.

Sim, inimigos terríveis do povo estão no congresso também, mas lá estão os senadores e o deputado em que votei e em momento algum me arrependi.

Todos eles têm conduzido seus mandatos com atuações que reforçam os princípios democráticos, não agravam privilégios e sustentam políticas públicas voltadas para o interesse dos assalariados.

Ou seja, nem todos que estão lá são inimigos do povo e nem todos os inimigos do povo estão lá – bem observado, infelizmente os cordões que os movem estão acima de suas cabeças.

Tudo que está dito acima é de uma obviedade acaciana e não me constrange dizê-la porque se fez necessário alertar: é preciso dar aos bois os nomes que os bois têm.

Ao contrário, a maior parte das vulnerabilidades do nosso sistema democrático decorre dos maus filtros da legislação partidária e eleitoral que definem os membros do congresso. O que se vê hoje é consequência.

É cada vez mais estridente a dissonância entre a agenda real da sociedade brasileira e o perfil majoritário dos nossos representantes legislativos.

É aguda, e já crônica, a crise de representatividade real entre povo e parlamento. Mas os problemas da democracia só se resolvem com mais democracia.

Em grande medida, as palavras que escolhemos para nomear as coisas as definem. O sentido cria realidade. Não é uma boa, definir nossa verdade tomando emprestada uma expressão tipicamente fascista.

Só acho.

Ricardo Alcântara é escritor, publicitário, profissional do marketing político e articulista do Focus.

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