No palco de Girão, Michele protagoniza e enquadra André

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O ato de lançamento da pré-candidatura do o senador Eduardo Girão (NOVO) ao governo do Ceará, realizado no auditório de um hotel na Praia do Futuro, neste domingo (30/11), serviu, de modo mais ampliado, para expor as fracções do grupo político que busca se capitalizar sob o espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Estiveram presentes nomes importantes do bolsonarismo nacional: os senadores Carlos Portinho, Plínio Valério. Jorge Seif e Damares Alves (além de Magno Malta, por meio de vídeo mensagem); os deputados federais Bia Kicis, Luiz Lima, Marcel Van Hattem, Alfredo Gaspar, José Medeiros, Sóstenes Cavalcante; o ex-procurador e ex-deputado Deltan Dallagnol, a médica Mayra Pinheiro, a ex-candidata à prefeitura de Curitiba, Cristina Graeml, o MBL Fernando Holliday dentre outros.

Nomes do bolsonarismo local, ou da direita, também estavam por lá, alguns com direito à fala: os deputados federais André Fernandes, Danilo Forte e Jaziel Pereira; os estaduais Dra Silvana, Alcides Fernandes, Sargento Reginauro, David Vasconcelos e Queiroz Filho; os vereadores Soldado Noelio e Priscila Costa; além de outros nomes importantes da direita local, como Kamila Cardoso e Capitão Wagner.

E, o mais importante, a presença da ex-primeira-dama Michele Bolsonaro.

Não faltaram referências à Bolsonaro e ao bolsonarismo, sobretudo pelas inúmeras referências, inclusive por meio de imagens e menções, aos “presos políticos” (como eles chamam os condenados pela intentona golpista de 08 de janeiro de 2023), à “ditadura de Alexandre de Moraes” e à “tirania do PT”. Mesmo que Girão sempre tenha se apresentado como “independente”, o evento deste domingo mostrou toda a dependência de sua empreitada do bolsonarismo, uma vez que inexistem distinções minimamente claras entre sua agenda e a mobilizada pelos apoiadores do ex-presidente.

Wagner, André e Alcides foram initerruptamente interrompidos por gritos de “Ciro, não” e “A direita é Girão”, numa prévia da prova de fogo do que devem enfrentar com a militância caso a aliança com Ciro Gomes (PSDB) se concretize (sinal aberto para Roberto Cláudio?).

Aliás, André começou seu interrompido discurso respondo à questão que, segundo ele, estava no ar entre apoiadores de Girão: “será que o André vem?”.  Não só foi, como arrematou: “estamos juntos nessa luta para mudar o Ceará”.

Mas, calma: ele não declarou apoio; até lembrou que, em 2024, mesmo candidato, estava no ato de lançamento da candidatura de Girão, contra ela, à prefeitura de Fortaleza. Teremos o mesmo quadro, opondo-os? No desejo de Wagner, que lembrou da disputa de 2024 que opôs os três, não será esse o quadro: “hoje, um de nós deveria ser o prefeito, não fosse a divisão”.

Divisão foi o que se viu neste domingo, e de modo bastante claro. Primeiro, reiteradas falas apontando para a necessária “união da direita” em torno do nome de Girão, o verdadeiro “pró-vida” (Damares Alves), “a pessoa certa, que não é lobo em pele de cordeiro” (Jorge Seif), o “candidato da família” (Priscila).

Mas, em segundo lugar e mais importante de tudo, a divisão manifesta no interior do bolsonarismo local exposta por Michele Bolsonaro: a “precipitada aliança”, capitaneada por André e seu grupo político, com Ciro Gomes, desafeto e perseguidor da “família Bolsonaro”.

Foram dois os momentos de tensão produzidos por Michele: primeiro, a exigência de uma foto de todos que estavam no palco e que, segundo ela, se lá estavam é porque apoiavam Girão, devendo ser cobrados, na eleição que se aproxima, com a foto de hoje em mãos, para ver quem era fiel ao projeto por ela encampado (o que já apontava a existência de possíveis traidores ali naquele palco); segundo, a responsabilização de André pela aliança, tida como “precipitada”, com Ciro Gomes, algoz desde sempre da família Bolsonaro e do “projeto”, arrancando pronta resposta de André a ela: “fiz tudo com acordo de Bolsonaro”.

O clima pesou. A bancada estadual, toda sentada na parte de trás do palco, fechou a face e se mostrou indignada com as palavras duras de Michele contra André, líder maior no estado; enquanto isso, Priscila era só risos, sobretudo depois de ouvir Michele dizer que era ela a “candidata ao Senado” dela, Michele, e de sua família.

Girão esperava o protagonismo, saindo dali como a aposta do campo da direita no estado para a eleição de 2026.

Saiu dali com duras tarefas: a de manter seu nome como candidato e a de não produzir, por conta disso, ranhuras na direita que facilitem a campanha à reeleição de Elmano. Ao que parece, é sua candidatura, e não a de Ciro, quem manterá acesa, no Ceará, a gramática discursiva que alimenta os votos da direita, uma vez que vai além do antipetismo.

A passagem de Michele pela cidade, a julgar pelas declarações de André logo após o evento – chamando-a não pelo nome, mas pela expressão “esposa de Bolsonaro” -, parece ter produzido mais ônus do que bônus para Girão e Priscila, mas sobretudo para esta, uma vez que lembrou que Bolsonaro e ele têm “liderança”.

Outro personagem deve ficar atento e observar o que se passou hoje: Ciro Gomes – a possível aliança, que nem mesmo se oficializou, pode estar com as horas contadas. Se Michele for a candidata à presidência, quem pedirá votos para ele aqui? Por certo, com sua candidatura e com a de Girão oficializadas, é para este que o bolsonarismo mais radical deverá pender?

Externalizou-se, com a visita de Michele, a fissura no campo: para onde marchará o bolsonarismo local – para onde André for ou para onde Michele apontar?

Quem se legitimará como mais bolsonarizado, sem declarações públicas de Jair (que está e estará preso na eleição): Michele, sua esposa e que carrega seu sobrenome, ou o jovem líder André?

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