08 de janeiro não é sobre velinhas com Bíblias; é sobre golpe! Por Emanuel Freitas

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Vidros quebrados após protesto de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Foto: Fellipe Sampaio /SCO/STF

Três anos nos separam daquele fatídico domingo, 08 de janeiro de 2023. Insatisfeitos com a derrota de seu candidato à presidência no ano anterior, manifestantes – travestidos de patriotas após anos de sequestro dos símbolos nacionais – puseram-se em marcha contra a Sede dos Três Poderes, em Brasília, e depredaram o que viram pela frente, na sede insana de provocar caos e, no delírio golpista que os movia, ver reempossado aquele que, então, “fugira” do país para não entregar a faixa presidencial a seu sucessor e, quiçá, não ter as mãos sujas nos diversos crimes que se cometeriam naquele domingo.

Os horrores que se viram naquele dia foram milimetricamente pensados e incitados ao longo de quatro anos de um (des)governo que deixou claro, a cada dia, seu total desprezo pelas regras democráticas, suas intenções autoritárias, seus diversos ataques às instituições, o sequestro dos símbolos nacionais etc. Foi o coroamento das aspirações do governo de Jair Bolsonaro, como depois se viu, claramente, nos diversos depoimentos de assessores e nas dezenas de documentos encontrados nas investigações da PF e da PGR.

Felizmente, as instituições (nas personas que as lideravam, à frente Rosa Weber, no STF, e Flávio Dino, no MJ) tiveram força e disposição para reagir, superando, já de início, a falácia bolsonarista de que a depredação havia sido obra de petistas infiltrados.

As investigações vieram e, com elas, as claríssimas relações entre o 08 de janeiro, o governo Bolsonaro e a trama pós-eleição.

Criaram-se pseudo-mártires da liberdade dentre aqueles que lá estavam para pedir a deposição de um presidente democraticamente eleito. Falaram de “senhorinhas com bíblias na mão”. Manipularam a opinião pública com imagens de mulheres, batons e, principalmente, com o mau uso da palavra “liberdade”.

O ex-presidente cumpre prisão pela condenação por atentar contra o estado democrático de direito; militares, também, assim como um conjunto de civis (foram 810 condenações) – tudo seguindo o mais rigoroso rito processual, como manda o estado democrático de direito que tais sujeitos buscavam pôr fim. Prédios foram reconstruídos. Indenizações foram impostas.

Mas, nem tudo são flores. O Congresso, na contramão de tudo isso, fez aprovar projeto de lei para diminuir a pena dos condenados; na verdade, para tirá-los da cadeia e dizer, em alto e bom som, que vale a pena atentar contra a democracia.

A batalha pela democracia não está ganha. Muitos dos parlamentares que apoiam a intentona golpista estarão, em breve, demando o voto do eleitor para suas reconduções ao Parlamento; alguns deles, tristemente, mobilizando a bandeira do golpismo.

Candidatos a presidente, à direita, já se comprometeram com indultos aos golpistas condenados, à frente deles o ex-presidente.

Vetada por Lula, a dosimetria poderá ser mantida pelo Congresso. Triste fim da democracia brasileira.

O segundo governo Trump está aí, e nos mostra que é possível candidatos a tiranos serem reconduzidos ao poder, e fazerem ainda pior do que na primeira tentativa.

Deve-se temer o resultado de outubro próximo. Mas, apesar disso, não deixar morrer a memória do 08 de janeiro.

Viva a democracia brasileira!

Emanuel Freitas da Silva é articulista do Focus Poder, professor adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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