Ler e aprender no mundo virtual; Por Paulo Elpídio

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“A leitura traz ao homem plenitude, o discurso, seguranca; e a escrita, precisão”, Francis Bacon, “Essays”, 1626

“Meus filhos terão computadores,sim. Mas, antes, terão livros”, Bill Gates

O Covid apagou os derradeiros vestígios de ensino presencial. O lockout da inteligência seguiu de perto, desde então, os usos e os abusos de uma civilização digital.

A universidade e as faculdades isoladas volatizaram-se em uma didática virtual e de baixo custo operacional. Os alunos não veem mais a figura encarnada e materializada do professor em pessoa na sala de aula.

Os livros feitos em papel, a invenção primitiva dos incunábulos, desfizeram-se em arquivos eletrônicos. Os alunos desaprenderam tudo sobre a escrita tradicional, já não têm o habito de escrever à mão. Papel, lápis, caneta esferográfica, a borracha, a régua e o compasso já não compõem a cesta básica do estudante.

Na Idade Média e nas “madrassas”, as escolas religiosas do Islã, o ensino explorava os recursos da oralidade e a memória.

A transição da oralidade para a escrita operou-se ao longo de outro processo demorado com a importância ganha pelo trabalho artesanal dos copistas no “apresamento” do pensamento e do conhecimento. A produção e a acumulação dos saberes, com o aperfeiçoamento do alfabeto, dar-se-iam pelo apoio das bibliotecas, dos monastérios, do “scriptorium” e dos laboratórios, da universidade e da “República das letras”. A leitura em rodas de interesse público, nas feiras e nas escolas da fé, seria o instrumento do progressivo aprovisionamento do conhecimento e do seu compartilhamento.

A complexa transição a que assistimos, nestes lances de transferência para a contemporaneidade, entre o livro impresso e a sua feição eletrônica, da passagem do analógico para o dialógico, do papel impresso para a virtualidade, não terá dido menor do que a migração da voz para a escrita manual ou tipográfica.

Os textos escritos, impressos, na sua navegaçāo entre a “produção” e a “recepção” fez-se, por pertinaz resistência intelectual, pela “leitura” em lugares públicos, ao ritmo cadenciado de um bastão sobre o chão.

O conhecimento permaneceu associado, por muito tempo, à memória. Recolhê-lo pela escrita ao papel seria condená-lo a uma forma mecânica de armazenanento — e tirar a força que a oralidade e a memória lhe poderia conferir. A cultura e os guardados do conhecimento estavam estreitamente associados à memória. As “madrassas” e as escolas bíblicas fizeram do pensamento e dos registros de memória a que se reduziam, nos seus começos pedagógicos, instrumento de uma oralidade fecunda, o terreno da voz. A catequese e o catecismo ganharam textos impressos com a ampliação dos espaços e pregação e de novas conversões que iam multiplicando.

[Paulo Elpidio de Menezes Neto – “Conversa de Livraria, Oficina da Palavra”, 2 volumes, Fortaleza, 2023]

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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