
A pesquisa Atlasintel/Bloomberg de janeiro de 2026 oferece um retrato cristalino do tabuleiro presidencial menos de dez meses do pleito. O quadro parece ser mais estável do que aparenta à primeira vista. A leitura rigorosa dos dados aponta menos para uma disputa aberta e mais para uma, digamos, assimetria estrutural entre campo governista e oposição.
O que os números dizem, sem ruído
Lula lidera todos os cenários testados, com variação mínima entre eles. Seja contra Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro ou em cenários pulverizados da direita, o presidente permanece orbitando a casa dos 48% a 49% no primeiro turno. Muito perto de uma vitória no primeiro tempo. Trata-se de um patamar elevado para um incumbente com 2/3 de mandato e sugere algo além de intenção de voto circunstancial: há um piso eleitoral consolidado.
No recorte mais direto:
- Cenário ampliado: Lula ~48%, Flávio Bolsonaro ~28%, Tarcísio ~11%.
- Cenário com Flávio Bolsonaro: Lula 48,8% vs. Flávio 35%.
- Cenário com Tarcísio: Lula 48,5% vs. Tarcísio 28,4%.
- Sem Bolsonaro e sem Tarcísio: Lula salta para 48,8%, enquanto o segundo colocado (Ronaldo Caiado) não passa de 15%.
O dado central não é apenas a liderança de Lula, mas sim a incapacidade da direita de converter soma em unidade.
A “direita unida”: força teórica, fraqueza prática
Há, sim, um estoque eleitoral conservador no país. Somados, os nomes da direita e centro-direita ultrapassam facilmente 40% em vários cenários. O problema é que esse capital não se transforma automaticamente em candidatura competitiva.
A pesquisa mostra três entraves claros:
- Fragmentação persistente. Fora Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, nenhum nome rompe a barreira de dois dígitos. Caiado, Zema, Ratinho Jr. e outros funcionam como satélites, não como polos de gravidade.
- Transferência imperfeita de votos. O eleitor bolsonarista transfere mais facilmente para Flávio do que para Tarcísio. Já o eleitor antipetista moderado não migra em bloco para nenhum dos dois. Resultado: a soma aritmética não vira maioria política.
- Ausência de um discurso nacional integrador. Tarcísio tem desempenho técnico e regionalizado; Flávio depende quase integralmente do sobrenome. Nenhum dos dois, até aqui, articula uma narrativa que atravesse classes, regiões e humores sociais com a mesma capilaridade de Lula.
Segundo turno: vantagem estrutural do incumbente
Nos cenários de segundo turno, Lula segue à frente tanto contra Flávio quanto contra Tarcísio. Isso ocorre por dois motivos-chave:
- Rejeição assimétrica: a rejeição ao bolsonarismo segue elevada, mesmo sem Jair Bolsonaro na urna.
- Centro funcional: Lula captura votos de eleitores que não o têm como primeira opção, mas o preferem como “porto seguro” frente a alternativas vistas como incertas.
Em linguagem direta: Lula vence menos pelo entusiasmo e mais pela comparação.
Agora, a leitura estratégica
Por que isso importa:
Porque a eleição de 2026, se nada mudar, não será decidida por escândalos ou ciclos econômicos isolados, mas pela incapacidade da oposição de produzir um nome inevitável.
O estado do jogo:
- Lula corre com vantagem thinkable, não esmagadora — mas consistente.
- A direita tem votos, mas não tem vetor.
- O centro não encontrou liderança nacional viável.
O risco para a oposição:
Entrar em 2026 repetindo 2022, com disputa interna prolongada, transferência tardia de apoio e campanha reativa. Esse pacote entrega a Lula o segundo turno com conforto.
O risco para o governo:
Acomodação. O piso alto não elimina vulnerabilidades, mas dá tempo e margem de manobra.
Para concluir
A pesquisa Atlas/Bloomberg não indica uma eleição aberta. Indica uma eleição em espera. Espera de um fato novo, de um líder improvável ou de um erro grave do incumbente.
Até aqui, nenhum desses elementos apareceu.
Se 2026 fosse hoje, Lula não apenas iria ao segundo turno como chegaria como favorito claro. E a direita, apesar do volume eleitoral, seguiria à procura de um nome que ainda não existe.
Metodologia da pesquisa
A pesquisa Atlas/Bloomberg (janeiro de 2026) ouviu 5.418 brasileiros adultos entre 15 e 20 de janeiro, com margem de erro de ±1 p.p. e nível de confiança de 95%. O levantamento utilizou a metodologia Atlas RDR (recrutamento digital aleatório), com amostra pós-estratificada por sexo, idade, escolaridade, renda, região e voto anterior. Registro no TSE: BR-02804/2026.
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