Um mistério em família; Por Angela Barros Leal

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O terceiro filho do casal Jacinta e João Paulino foi uma menina, a quem os pais batizaram como Rufina, o nome da avó materna. Tinha 4 anos de idade, “gozava de completa saúde, era formosa e esperta” – escreveria João Paulino em suas Memórias, escritas em 1899, passadas três décadas do acontecido. Era noite. A menina brincava na calçada da casa, sob a temperatura que abrandava em Quixeramobim. João Paulino e a esposa Jacinta – avós do meu avô –, se preparavam para visitar amigos. 

Jacinta embalou Rufina até que ela dormisse, colocou a menina em uma rede que não era a da própria criança, e saiu com o marido. Na volta, enquanto João Paulino prosseguia o passo para cumprimentar o vizinho Ernesto de Matos, na roda formada diante da calçada da casa dele, Jacinta entrava no quarto para ver como estavam os filhos em suas redes de dormir, tanto os dois mais velhos como os menores. 

A cabeça da pequena Rufina pendia para fora da rede. Jacinta correu para despertar a menina. Segurou sua cabeça entre as mãos, não sentiu a respiração, e percebeu que a filha estava morta.

O que teria acontecido com a menina Rufina, no intervalo de tempo em que os pais visitaram uma residência à qual foram e voltaram a pé – essa é a questão que até hoje nos intriga.

Em suas Memórias, João Paulino atribui o doloroso fato a um descuido. “Houve um erro talvez. Não foi ela deitada na própria rede, nem na alcova, onde dormia, mas no quarto que fica no fundo desta. A esse tempo, ainda não havia porta de um quarto para o outro. Tendo a casa corredor, todos os quartos só tinham saída para o dito corredor, uma extravagância dos tempos anteriores.” 

Na sofrida análise que faria, repetidas vezes, sobre a tragédia jamais esquecida, “na nossa ausência, a criada, então escrava, entendeu acertado transferir a menina do leito provisório para o efetivo”. O que, aparentemente, iria fazer toda a diferença entre a vida e a morte.

 A criada, alguém “de confiança”, incumbida de tão somente cuidar das crianças, teria conduzido a menina nos braços, “pelo corredor afora, provavelmente desagasalhada e sem a menor precaução. Um terrível golpe de ar encanado, sem dúvida, determinou a congestão cerebral, que o médico diagnosticou.” Teria sido essa a causa mortis: congestão cerebral. Termo hoje em desuso, garantem os dicionários médicos, substituído por edema cerebral. 

Não possuo conhecimentos suficientes para definir a morbidade da referida congestão, mas sei muito bem, a partir da leitura dos obituários em jornais antigos, que se tratava de um diagnóstico rotineiro no século XIX. Pelo sofrido relato de João Paulino, a congestão cerebral teria causado a morte súbita de uma menina com 4 anos de idade, adormecida nos braços da criada, no percurso entre o “o leito provisório e o efetivo”. 

E eu me pergunto: que poderosas correntes de ar encanado, soprando pela vegetação rasteira de Quixeramobim, teriam entrado em lufadas assassinas de corredor adentro, agitando a chama das velas, o pavio protegido das lamparinas, vendaval feroz a ponto de levar a vida de uma criança saudável. Como seria possível que um sopro de vento, penetrando qual um ousado gatuno pelas portas e janelas dianteiras de uma casa, em uma pacata cidade de interior, pudesse ceifar com inexplicável rapidez a vida de quem quer que fosse. 

E qual não terá sido o incomensurável desespero dos pais, orando e clamando junto ao médico pelo restauro da saúde da pequena filha. Trinta anos mais tarde, João Paulino tentara traduzir o sentimento em palavras: “A minha pena não poderia descrever esta lúgubre cena, ainda mesmo que não estivesse eu escrevendo ao correr dela, com as cores próprias. Fazer a querida filha voltar à vida era o meu pensamento. Arrancar do médico esse milagre era a minha exigência. Mas por fim, só me restava chorar.” 

Ainda pensara em investigar a causa, como se isso fosse capaz de fazer alguma diferença, o que deixou claro na frase: “Fui procurar saber do médico se se tratava porventura de um crime”. Porém, as necessidades do momento falaram mais alto, e ele se voltara a socorrer a esposa, “que quase agonizava.” 

Ao final da narrativa, João Paulino nos deixou uma intrigante afirmativa: “Muito tinha eu ainda a dizer a respeito, mas para que avivar esta chaga, que nunca cicatrizará?” É justamente aí, no que ele não chegou a dizer, que se inquieta a curiosidade familiar, impossível de ser satisfeita.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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