
As conversas entre o presidente do PT, Edinho Silva, o senador Ciro Nogueira (PP) e o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, mostram que o tabuleiro eleitoral de 2026 segue longe de qualquer definição. Ao contrário do que discursos públicos sugerem, o que se desenha nos bastidores é um cenário típico de pré-campanha: negociações múltiplas, alianças instáveis e decisões adiadas ao limite do calendário. E o Ceará é um dos epicentros dos interesses.
O encontro, revelado por O Globo, ocorreu ainda em janeiro e teve como eixo central a montagem de palanques estaduais, sobretudo no Nordeste — região onde o lulismo mantém musculatura eleitoral e onde a oposição tenta ampliar presença, mesmo sem clareza absoluta sobre seu projeto nacional.
Federação União Progressista: neutralidade como estratégia
PP e União Brasil caminham para formalizar a federação partidária, chamada nos bastidores de União Progressista, ainda pendente de chancela do TSE. E é justamente essa federação, com peso decisivo na Câmara e influência crescente nos estados, que se tornou objeto de disputa entre governistas e oposicionistas.
A tendência predominante hoje, segundo interlocutores, é de que a federação busque uma saída pragmática: neutralidade na eleição presidencial, liberando alianças estaduais conforme conveniências locais. Esse modelo dá margem para que Lula e a oposição disputem apoio em capítulos isolados, estado por estado, sem uma amarra nacional imediata.
Essa postura também interessa aos dirigentes da federação por um motivo simples: ela permite que PP e União Brasil maximizem o objetivo real do ciclo eleitoral. No caso, cadeiras no Congresso.
Nordeste vira campo de batalha antecipado
O Nordeste aparece como epicentro das conversas. Pernambuco, Maranhão e Ceará foram citados como estados estratégicos na reunião entre Edinho, Ciro Nogueira e Rueda, exatamente porque ali o PT mantém capacidade de articulação e o lulismo ainda impõe barreiras para projetos oposicionistas mais agressivos.
Mas o Ceará, em particular, se tornou o ponto de maior tensão.
De um lado, o governo trabalha para atrair a federação oferecendo espaços em composição majoritária. Do outro, o grupo oposicionista tenta construir um bloco competitivo ao redor de um nome que, embora experiente, ainda enfrenta resistências internas e externas: Ciro Gomes.
Ciro Gomes se movimenta e sinaliza ofensiva
Apesar das incertezas sobre quem será o presidenciável do campo oposicionista, Ciro Gomes tem reforçado sua presença no Nordeste e, principalmente, no Ceará, intensificado conversas com dirigentes do União Brasil.
Na semana passada, ele esteve em agendas com Rueda e também com ACM Neto, além de participar de um jantar articulado pelo deputado Danilo Forte, reunindo figuras-chave como Ciro Nogueira, Capitão Wagner e Roberto Cláudio. O encontro teve como foco o cenário do Ceará e os caminhos para uma eventual candidatura ao governo.
O movimento é relevante porque demonstra que, mesmo sem anúncio formal, há um esforço de alinhamento oposicionista em torno de uma candidatura estadual forte, capaz de reorganizar forças no Ceará. Mas nada está fechado. Ciro tem motivos para ficar ressabado. Nas duas últimas eleições presidenciais, alianças costuradas em torno de seu nome foram implodidas na reta final, invianilizando a sua candidatura.
PT tenta “armistício” com o centro
A leitura é que a reunião entre Edinho, Nogueira e Rueda funciona como um gesto de descompressão. Um tipo de armistício informal após o anúncio de rompimento da cúpula do PP e do União Brasil com o governo Lula no ano passado. O tom, agora, mudou. As críticas públicas diminuíram. O discurso ficou mais calculado. E o silêncio, no caso do centrão, costuma ser um indicador de que a porta segue aberta.
Há também um fator de bastidor que dá peso adicional a essa aproximação: relatos de que Ciro Nogueira teria participado de uma conversa reservada com Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta, encontro que o senador nega publicamente, mas que aliados confirmam.
O sinal é claro: ninguém quer ser o primeiro a romper pontes.
Variáveis podem mudar tudo — e o “Caso Master” é uma delas
O ambiente político de 2026 não será decidido apenas por articulações partidárias. Eventos externos, crises inesperadas e escândalos podem redefinir forças com rapidez. E é nesse ponto que o escândalo envolvendo o Banco Master se torna um elemento explosivo no tabuleiro. Há sinais de que o problema pega o governismo de raspão, mas atinge em cheio figurões do centrão.
O caso ainda se desdobra e já é tratado em Brasília como uma bomba de potencial imprevisível. Dependendo do alcance das investigações e do impacto político, pode produzir estragos profundos, especialmente para nomes que venham a ser associados ao tema.
Nos bastidores (e no noticiário), circula há tempos a percepção de que Ciro Nogueira possui conexões políticas com o Master, o que pode colocá-lo sob pressão adicional caso o escândalo avance. Se isso ocorrer, o governo ganha uma carta poderosa para negociar com o centrão: o poder de barganha de quem controla parte da agenda institucional e política em Brasília.
Esse tipo de variável, muitas vezes, pesa mais do que ideologia.
PL no Ceará já recuou: sinal de que ninguém tem controle absoluto
Outro indicador de instabilidade recente foi o recuo do PL no Ceará na até então entusiasmada dedicação à candidatura de Ciro Gomes ao Governo. A seção estadual do partido chegou a se mover em direção a um apoio político, mas acabou sendo obrigada a recuar. O episódio revela o óbvio que muita gente tenta esconder: as decisões locais não estão blindadas das disputas nacionais e, em 2026, o controle dos diretórios estaduais tende a virar campo de batalha interno.
Negociações até agosto: o calendário empurra o desfecho
A tendência é que esse xadrez se arraste até o limite. A janela decisiva será agosto, quando convenções partidárias forçarão as definições formais. Até lá, o jogo será de sinais, encontros discretos, recados indiretos e conversas que todos negam oficialmente, mas que determinam o rumo do país. O governismo sabe que não precisa “conquistar” PP e União Brasil por completo. Basta garantir algo mais pragmático: neutralidade.
Já a oposição aposta que pode construir no Nordeste uma base que enfraqueça o lulismo e reorganize o mapa eleitoral. Mas, por enquanto, ainda não há unanimidade nem garantia de fidelidade partidária.
O cenário real: nada fechado, tudo negociável
O que se vê é um sistema político operando em sua lógica tradicional: partidos de centro preservando margem de manobra, o PT buscando evitar isolamento e a oposição tentando construir musculatura regional antes de definir seu projeto nacional. No meio disso, um escândalo como o do Banco Master pode funcionar como gatilho de rearranjos. Atentem: o campo da diusputa é movediço e novas variáveis tendem a interferir e influenciar o processo de formação das alianças.
A verdade é que 2026 ainda não começou oficialmente, mas o país já entrou no modo campanha. E no Brasil, quando a eleição se aproxima, a regra é simples: quem parece longe, pode estar perto; quem parece fechado, pode abrir; e quem se julga forte, pode cair antes da largada.





