Corrupção alimenta violência e trava desenvolvimento no Brasil e nas Américas

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Ônibus incendiado: para muito, um tipo de terrorismo praticado por facções criminosas contra o Estado.

A corrupção segue corroendo democracias, enfraquecendo serviços públicos e ampliando a violência nas Américas. É o que aponta o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2025, divulgado nesta terça-feira (10) pela Transparência Internacional, com um diagnóstico direto: a região permanece paralisada.

A média das Américas ficou em apenas 42 pontos, numa escala de 0 a 100. Desde 2012, 12 dos 33 países analisados pioraram significativamente, enquanto somente República Dominicana (37) e Guiana (40) conseguiram melhorar de forma relevante — um retrato de uma década perdida no combate à corrupção.

Brasil vira âncora do retrocesso
Com 35 pontos e ocupando o 107º lugar no ranking mundial, o Brasil aparece como uma das principais âncoras da crise institucional regional, ao lado de países onde a corrupção se mistura com crime organizado e fragilidade do Estado.

Segundo o relatório, a corrupção tem permitido a infiltração do crime organizado na política em países como Colômbia (37), México (27) e Brasil (35), com impactos diretos sobre a vida da população, principalmente na segurança pública.

O documento sugere que, no Brasil, a corrupção já não se resume a escândalos pontuais: ela opera como um mecanismo estrutural de captura do Estado, corroendo a democracia e abrindo espaço para redes criminosas.

Violência cresce até em democracias mais estáveis
A Transparência Internacional alerta que nem mesmo os países mais bem avaliados estão imunes. Uruguai (73) e Costa Rica (56) — considerados os sistemas democráticos mais sólidos da região — começam a sentir o avanço da violência associada à corrupção e ao crime organizado. Ou seja: o fenômeno não está restrito a nações falidas. A deterioração se espalha, pressionando até os modelos mais eficientes de governança.

O mapa da corrupção nas Américas
Os melhores colocados do continente foram:

  • Canadá (75)

  • Uruguai (73)

  • Barbados (68)

No extremo oposto, a região volta a ser marcada por países com repressão política e instituições capturadas:

  • Venezuela (10)

  • Nicarágua (14)

  • Haiti (16)

O relatório aponta que nesses locais a corrupção se tornou “enraizada”, sustentada por redes criminosas e por governos que neutralizam mecanismos de controle.

Casos concretos: corrupção que mata e adoece
O relatório destaca episódios que mostram como corrupção não é apenas estatística — é impacto real. No Peru (30), denúncias de suborno para burlar inspeções sanitárias estariam ligadas à distribuição de alimentos contaminados em escolas públicas. Na Argentina (36), investigações sobre irregularidades na gestão de recursos destinados a medicamentos para pessoas com deficiência indicam riscos diretos a grupos vulneráveis. E na Venezuela (10), a corrupção sistêmica ajudou a aprofundar pobreza e desnutrição, com milhões de famílias vivendo sob escassez de água, comida e eletricidade.

O Brasil, situado no mesmo bloco de desempenho crítico, é citado como parte desse corredor regional onde corrupção e crime organizado caminham juntos.

Democracia sob ataque
O documento também aponta um padrão preocupante: o enfraquecimento deliberado da fiscalização pública. Em países como El Salvador (32), restrições contra organizações civis limitam monitoramento independente do governo. Na Guiana (40), o relatório registra episódios de intimidação contra imprensa e sociedade civil, reduzindo transparência e responsabilização. Para a Transparência Internacional, esse ambiente favorece um ciclo perigoso: menos controle → mais corrupção → mais crime organizado → mais violência.

Estados Unidos em queda histórica
O relatório também chama atenção para os Estados Unidos (64), que registraram sua pior pontuação de todos os tempos, mantendo trajetória descendente. A ONG cita preocupações com perseguição a vozes independentes e riscos à independência judicial. Também aponta o enfraquecimento de instrumentos anticorrupção, como a aplicação da FCPA (lei americana contra corrupção empresarial no exterior), além de cortes em apoio internacional à sociedade civil.

A frase que resume o relatório
A conselheira regional para América Latina e Caribe da entidade, Luciana Torchiaro, foi direta: O combate à corrupção precisa estar no centro da agenda para reduzir a influência do crime organizado e melhorar a vida das pessoas. A recomendação inclui reforçar liberdades civis, garantir Judiciário independente, ampliar cooperação internacional e tornar licitações públicas mais transparentes.

Brasil no centro do dilema
Para a Transparência Internacional, o Brasil representa o caso clássico de país onde a corrupção não apenas desvia recursos — ela desorganiza o Estado, desmoraliza instituições e cria terreno fértil para redes criminosas.

Em uma região onde o crime organizado ganha musculatura e a democracia perde força, o Brasil surge como um símbolo da estagnação: grande demais para ignorar, frágil demais para liderar.

E enquanto o país não reage, segue funcionando como âncora regional, puxando para baixo o que deveria ser uma agenda continental de reconstrução institucional.

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