
O presidente da AtlasIntel, Andrei Roman, fez uma das avaliações políticas mais relevantes do pré-ciclo eleitoral de 2026: o Nordeste, principal fortaleza eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva nas últimas eleições, estaria, a julgar por números recentes, deixando de oferecer a vantagem estrutural que sustentou o campo petista nas disputas nacionais em praticamente todas as eleições nacionais dos ultimos 20 anos.
A declaração foi dada durante a conferência Brasil em Pauta Nova York, realizada na Brazil Week, em evento promovido pelo Estadão. Segundo Roman, há uma mudança silenciosa em curso na percepção política do eleitor nordestino. O diagnóstico parte de pesquisas nacionais e regionais da AtlasIntel — instituto que mantém parceria de divulgação no Ceará com o Focus Poder.
O Bolsa Família mudou de lugar no imaginário popular
Uma das principais observações feitas pelo CEO da AtlasIntel envolve a transformação da percepção sobre o Bolsa Família. Durante muitos anos, sobretudo após os governos Lula, o programa esteve politicamente associado à figura do presidente petista. Agora, segundo Roman, isso mudou.
“O Bolsa Família não é mais percebido como algo que poderia acabar com outro governo. Ele passou a ser entendido como um direito permanente”, afirmou. O jornalista Fábio Campos, editor do Focus Poder, vai na mesma linha: “Bolsa familia já é visto pelo cotidiano da clientela eleitora como algo já conquistado. Agora, outras demandas são as que importam. Utopias são o caminnho a percorrer no discurso eleitoral”.
A mudança parece pequena, mas altera profundamente a lógica eleitoral do Nordeste. Historicamente, o programa ajudava a consolidar uma identificação emocional e política entre Lula e parcelas importantes da população de baixa renda. Hoje, o benefício teria perdido parte do seu poder de fidelização política automática.
Violência passa a ocupar o centro do debate
Outro ponto central da análise de Roman é a segurança pública. O CEO da AtlasIntel afirmou que o avanço das facções criminosas em capitais nordestinas passou a influenciar diretamente o humor político da região. Fortaleza foi citada nominalmente ao lado das periferias de Recife e Salvador. A fala de Roman foi ainda antes da divulgação dos levantamentos que apontam queda significativa nos índices de criminalidade no Ceará. Veja aqui o impacto que esses resultados, se mantidos, tendem a se impor na campanha.
A leitura do instituto é que a violência deixou de ser um problema difuso para se transformar em experiência cotidiana da população. Chacinas, expansão territorial de facções, ataques a provedores, disputas urbanas e crescimento do crime organizado passaram a afetar a percepção sobre governos locais e lideranças associadas ao campo lulista.
O Ceará dentro da mudança de humor político
No Ceará, a observação ganha peso adicional. O Estado foi, durante anos, um dos territórios mais sólidos do lulismo no Brasil. A combinação entre forte presença de políticas sociais, liderança regional dos Ferreira Gomes, e posteriormente, de Camilo Santana, em determinados períodos e elevados índices de aprovação de governos estaduais produziu um ambiente amplamente favorável ao campo progressista.
Esse cenário começou a apresentar rachaduras nos últimos ciclos eleitorais. O crescimento da preocupação com violência urbana, especialmente em Fortaleza e Região Metropolitana, passou a influenciar pesquisas qualitativas e quantitativas. A segurança pública deixou de ser um tema periférico para ocupar posição central na formação de opinião do eleitorado.
AtlasIntel aponta mudança estrutural
A fala mais importante de Andrei Roman talvez tenha sido justamente a menos percebida. “Quando existe uma região que oferece um bônus grande a um candidato, e esse bônus tende a cair muito, a situação estrutural da eleição muda completamente”, afirmou. A análise aponta para algo maior que uma simples oscilação de pesquisa.
O Nordeste sempre funcionou como colchão eleitoral do lulismo. Em vários cenários recentes, a vantagem regional compensava desempenhos mais frágeis em estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Se essa diferença diminuir, a equação nacional muda.
Pesquisas mostram ambiente mais competitivo
Levantamentos recentes da AtlasIntel mostram cenários mais apertados para Lula em simulações de segundo turno contra nomes ligados à direita e ao bolsonarismo. Em cenários divulgados recentemente, adversários como Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Romeu Zema aparecem reduzindo distâncias historicamente mais amplas. (Wikipédia)
Análise Focus Poder
O dado mais relevante da fala de Andrei Roman não é necessariamente eleitoral. É sociológico. O Nordeste passa por uma transformação silenciosa no comportamento político de parte do seu eleitorado urbano. O crescimento das facções, a sensação de insegurança e a naturalização dos programas sociais alteram vínculos históricos que antes pareciam permanentes.
Não significa necessariamente uma guinada ideológica da região. O que parece emergir é um eleitor mais pragmático, menos fidelizado e mais sensível a temas concretos do cotidiano. No entanto, o incremento das atividades econômicas, com investimentos vultosos tanto privados quanto públicos, injetam recursos na economia de uma forma que tende a impactar a percepção do eleitrado.
No Ceará, esse fenômeno pode produzir uma eleição altamente diferente das anteriores. A segurança pública tende a ocupar papel central no debate estadual e nacional, principalmente quando entra no cenário local uma figura com as características de Ciro Gomes. Enfim, a política nordestina talvez esteja entrando em uma nova fase: menos marcada pela memória dos grandes ciclos sociais dos anos 2000 e mais influenciada pelas angústias (e alguma s agendas positivas) urbanas do presente.







