O Ceará em outro patamar: energia, dados e poder

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Durante décadas, o Ceará esteve
associado, no imaginário nacional, às imagens da seca, da migração forçada, da pobreza estrutural e da dependência econômica. A geografia adversa do semiárido moldou políticas públicas, cultura e até a percepção externa sobre o Estado. Agora, pela primeira vez em muito tempo, o Ceará começa a ocupar um lugar oposto no tabuleiro econômico mundial: o de território estratégico para a infraestrutura digital do século XXI.

A afirmação do presidente em exercício, Geraldo Alckmin, de que o Ceará possui dez projetos de data centers em desenvolvimento, não representa apenas um anúncio de investimentos. Ela sinaliza uma mudança estrutural na posição econômica do Estado dentro do Brasil e da economia global. (Diário do Nordeste)

O mundo vive uma corrida sem precedentes por capacidade computacional. A expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem, das plataformas digitais, dos sistemas financeiros online, do streaming e da automação industrial elevou os data centers à condição de infraestrutura crítica, comparável às ferrovias do século XIX ou às refinarias de petróleo do século XX. Quem concentra energia, conectividade e estabilidade passa a concentrar também poder econômico.

E é exatamente nessa convergência que o Ceará emerge.

O Estado reúne hoje três ativos raros quando observados em conjunto: posição geográfica privilegiada, abundância de energia renovável e grande conectividade internacional por cabos submarinos. Fortaleza tornou-se o principal ponto de chegada de cabos submarinos da América Latina, conectando o Brasil à América do Norte, Europa e África. Essa malha reduz a latência das comunicações e transforma o Ceará em uma espécie de “porta digital” do Atlântico Sul.

Ao mesmo tempo, o Ceará consolidou-se como potência energética renovável. O avanço da geração eólica e solar, somado ao potencial offshore e aos projetos ligados ao hidrogênio verde, criou um diferencial decisivo. Data centers consomem volumes gigantescos de energia elétrica. A inteligência artificial ampliou dramaticamente essa demanda. No cenário global atual, há escassez de locais capazes de oferecer simultaneamente energia abundante, limpa, competitiva e estável.

Foi exatamente isso que Alckmin resumiu ao afirmar que “falta energia, e o Ceará tem energia e é renovável”.

A consequência econômica disso é profunda.

Os investimentos projetados para os data centers em implantação no Estado já ultrapassam centenas de bilhões de reais. Apenas o empreendimento da ByteDance, controladora do TikTok, no Complexo do Pecém, é estimado em cerca de R$ 200 bilhões e deverá se tornar o maior data center do Brasil. (Diário do Nordeste)

Mas o impacto verdadeiro talvez não esteja apenas na dimensão financeira direta dos projetos. O ponto central é o efeito de encadeamento econômico que essa nova indústria pode produzir.

Grandes ciclos de desenvolvimento raramente surgem de um único setor isolado. Eles criam ecossistemas. Em torno dos data centers, formam-se demandas por engenharia especializada, construção civil pesada, telecomunicações, refrigeração industrial, segurança digital, software, automação, inteligência artificial, logística internacional, energia, pesquisa acadêmica e qualificação profissional.

O Ceará começa a entrar justamente nessa lógica de ecossistema tecnológico.

A própria construção dos empreendimentos já movimenta a economia local. Segundo dados apresentados recentemente, somente os primeiros meses de implantação dos projetos já haviam gerado cerca de R$ 190 milhões em contratos, com aproximadamente 90% destinados a empresas cearenses.

Mais importante ainda é perceber que os data centers podem funcionar como infraestrutura âncora para uma economia digital mais sofisticada. O ex-vice-governador Maia Júnior chamou atenção para esse aspecto ao afirmar que o data center não deve ser visto como fim em si mesmo, mas como base para uma nova indústria tecnológica. A presença dessa infraestrutura pode atrair empresas de software, games, serviços digitais, computação em nuvem, inteligência artificial e processamento de dados. Em outras palavras: os data centers podem ser o equivalente contemporâneo das antigas zonas industriais. (O Povo)

Isso ajuda a explicar a ambição de elevar a participação do Ceará no PIB brasileiro dos atuais 2% para 4% nas próximas décadas. A meta parece ousada porque rompe uma estabilidade histórica de mais de meio século. No entanto, pela primeira vez, há um vetor econômico capaz de alterar estruturalmente a escala produtiva do Estado.

Há também uma dimensão simbólica poderosa nesse movimento.

O semiárido, historicamente associado à escassez hídrica e às limitações econômicas, passa a integrar uma das cadeias mais sofisticadas do planeta. O território que durante décadas exportou mão de obra passa a disputar investimentos globais de altíssima intensidade tecnológica.

Naturalmente, desafios permanecem. O crescimento dessa nova fronteira tecnológica exigirá governança ambiental rigorosa, planejamento hídrico, formação acelerada de capital humano e modernização da infraestrutura urbana e energética. O debate sobre consumo de água, por exemplo, continuará inevitável, embora representantes do setor argumentem que os novos projetos utilizam tecnologias mais eficientes e representem parcela mínima da demanda hídrica estadual.

Ainda assim, o que está em curso parece representar uma ruptura histórica.

Durante muito tempo, o Ceará buscou superar o atraso. Agora começa a disputar protagonismo em uma das indústrias mais estratégicas do século XXI.

Não se trata mais apenas de desenvolvimento regional. O Estado passa a se posicionar como peça relevante da infraestrutura digital global.

É outro patamar.

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