Ciro Gomes no fio da navalha: até onde vai sem cair no bolsonarismo

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A articulação entre Ciro Gomes (PSDB) e o Partido Liberal, controlado pela família Bolsonaro e sua área de influência, ganhou novos contornos nas últimas semanas. O debate não gira apenas em torno de uma aliança eleitoral no Ceará, mas envolve interesses nacionais, disputas internas no PL e, sobretudo, o peso simbólico (para Ciro) de uma eventual associação com o bolsonarismo, representado por Flávio Bolsonaro. A suspensão das conversas, somada à atuação de Michelle Bolsonaro e à discussão sobre nomes como Priscila Costa, revela que não se trata de um simples arranjo regional, mas de uma equação política mais ampla e delicada.

O que está colocado não é apenas uma negociação eleitoral comum, mas um teste de limites políticos para Ciro Gomes e para o Partido Liberal. Uma coisa é compor chapa ao Governo do Ceará com o PL indicando nome para o Senado, distribuir espaços e construir uma aliança de bastidores. Outra, muito mais delicada, é transformar esse acordo em imagem pública, em palanque compartilhado, em circulação conjunta pelo interior do Ceará com Ciro abraçado a Flávio Bolsonaro.

Para o PL, o apoio de Ciro, com o compartilhamento do palanque local, é fundamental para o desempenho de Flávio no Ceará, um estado historicamente lulista e arredio ao bolsonarismo. Porém, o experiente Ciro sabe onde pisa (poucos sabem ler tão bem a conjuntura quanto ele). O Ceará não é um terreno neutro. É um estado que, eleição após eleição, reafirma uma identidade política fortemente inclinada ao campo liderado por Lula.

Em 2018, por exemplo, o desconhecido (aqui) paulistano Fernando Haddad atingiu uma votação mais que expressiva no estado, consolidando um padrão que não pode ser ignorado: 71% no segudo turno contra Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, outra surra de Lula. Nesse ambiente, a simples associação com o bolsonarismo já carrega custo decisivo. A exposição direta, com agenda conjunta e imagem compartilhada, amplia esse risco a um nível que pode comprometer a base eleitoral que sustenta o projeto de Ciro no Ceará. Troocando em miúdos, a associação com Flávio pode invianilizar Ciro no Ceará.

Do lado do PL, a exigência de contrapartida não é descabida. Pelo contrário. Um partido com ambição nacional não entra em uma aliança relevante para permanecer invisível. Se há apoio a Ciro, o Partido Liberal precisa transformar isso em ativo político: presença, visibilidade e tentativa concreta de reduzir sua rejeição no Ceará e, como um todo, no Nordeste. O problema é que essa estratégia depende justamente de um aliado que, para sobreviver eleitoralmente, precisa limitar essa exposição.

A equação se torna ainda mais complexa com o peso de Michelle Bolsonaro que levou ao fígado o histórico de críticas disparadas por Ciro contra a famáilia Bolsonaro. Tanto que foi ela a responsável por acabar com festa no relacionamento PL-Ciro no Ceará. Michele veio ao Ceará, declarou apoio à candidatura de Eduardo Girão ao Governo e jogou peso no nome de Priscila para o Senado, causando a suspensão das tratativas formais com Ciro.

Não foi à toa que, mais recentemente, o nome de Priscila passou a ser apontado como uma potencial vice de Flávio. Não se sabe se é algo para se levar a sério ou se trata apenas de um afago em Michele com a finalidade de desobstruir as articulaçõs no Ceará

Quando Flávio Bolsonaro afirma que as conversas do PL estão suspensas no Ceará, o que se revela é uma divergência estrutural. O que o PL precisa extrair dessa aliança não coincide, no mmento, com o que Ciro pode oferecer sem comprometer sua própria viabilidade. A possibilidade de apoio sem a contrapartida do palanque esbarra justamente nesse ponto: até onde o partido aceitaria abrir mão de visibilidade em troca de um ganho regional incerto.

O impasse, portanto, não é circunstancial. Ele nasce do choque entre dois projetos que se cruzam, mas não se encaixam completamente. Ciro não pode abraçar o bolsonarismo sem pagar um preço alto no Ceará. O PL, por sua vez, não pode apoiar sem transformar essa aliança em instrumento de expansão no Nordeste. Enquanto essa equação não encontrar um ponto de equilíbrio, a aproximação seguirá como possibilidade remota, mais presente no campo das articulações do que na realidade concreta da disputa eleitoral.

Bom, tudo isso vale quando se trata do projeto de candidatura de Ciro ao Governo, mas a discuussão se esvazia se a opção for pela eleição presidencial. O fato é que Ciro, até aqui, não declarou formalmente sua pré-candidatura ao Governo. Vai esperar.

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