Do voto, das unas, dos algoritmos e da democracia; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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[Em torno de alguns pressupostos sobre uma sociologia eleitoral]

“O cidadão é a partícula da soberania — é o voto.”
— José de Alencar

“Sem liberdade não há voto.”
— Rui Barbosa

Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

A história do voto confunde-se, no Brasil, com as raízes mais distantes das oligarquias, desde o Império e por toda a República.

As ditaduras, trazidas pela quebra constitucional — no governo Floriano Peixoto, em 1937, em 1954, em 1964 e em 2023, com o advento dos embargos pretorianos — tiveram o voto e a representação, assim como o mandato, no centro de uma democracia “vigiada”.

No começo, nem todos eram cidadãos, segundo o viés dos “federalistas”, aquela gente sisuda de protestantes cheia de virtudes, votantes habilitados a participar da “eleição” de seus parlamentares.

Pobres e desvalidos da sorte não votavam; os homens “bem-nascidos”, sim — mas não as mulheres, nem os escravos, muito menos os alforriados.

O voto era um “registro escritural”, a bico de pena. Os candidatos saíam das comodidades políticas e patrimonialistas do Imperador, ou dos governadores provinciais e dos estados. “Indicar” os candidatos era o ponto de partida de todo o processo eleitoral.

A “construção” do voto — isto é, a fabricação da receita com a qual se formavam a vontade e a escolha do cidadão votante — era atributo das oligarquias, com as quais o Império e a República compartilhavam o seu poder eleitoral.

“Formar” o voto e apurá-lo, nos livros de presença, eram processos que se completavam sob os cuidados do Estado e das oligarquias locais.

Daí porque a “eleição” revestiu-se, no Brasil, de um ritual litúrgico que acompanha, desde então, o processo eleitoral — da “festa” cívica do voto à sua apuração.

Da votação “a bico de pena”, com o voto escritural, visível e controlável, à “urna cidadã”, de cujo bojo eram extraídos os votos, vai um longo e árduo aprendizado.

A urna eletrônica viria a seu tempo, com os avanços da informática. Tornou-se, com o tempo, espécie de “tótem”, o altar da democracia diante do qual cidadãos e cidadãs firmam o “contrato eleitoral”, pelo qual a lei haverá de conferir mandato aos seus representantes.

Stalin, com sua perspicácia de modelador do Estado soviético moderno, convencera-se de que “vencia” a eleição quem “contava” os votos. Por isso, fez do Partido Comunista um partido único, sem rixas nem queixas, afastadas as incertezas do voto. O voto materializa-se, nesse cenário, pela “aclamação” uníssona dos sovietes.

Na democracia, em largo espectro, valem a liberdade para a escolha dos candidatos e a contagem do voto.

Se o voto eletrônico é um avanço nas técnicas eleitorais, como acreditamos, por que abandonar a comprovação impressa dessa decisão? Afinal, os algoritmos ainda não foram celebrados como fiadores da democracia.

Deixamos de celebrar, no Brasil, a festa da democracia para pôr em seu lugar a consagração de um recipiente inteligente de guarda e contagem de votos como símbolo da soberania de um governo do povo.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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