A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

COMPARTILHE A NOTÍCIA

A súbita redução dos homicídios no Ceará em 2026, tão rápida quanto inesperada, não pode ser explicada por uma única variável. A leitura simplista, que atribui o fenômeno exclusivamente a políticas públicas  de segurança ou apenas ao rearranjo entre facções, ignora a natureza complexa da violência contemporânea. Em contextos dominados pelo crime organizado, a taxa de assassinatos funciona como um sismógrafo: registra tanto os tremores da disputa ilegal quanto a capacidade do Estado de conter seus abalos.

É evidente que a pacificação forçada entre grupos rivais, com a absorção de uma facção por outra e a consequente redução da guerra territorial, produz impacto imediato nos índices de homicídios. Trata-se de um padrão observado não apenas no Ceará, mas em diversas geografias do crime. Quando diminui o conflito armado entre organizações, reduz-se o principal motor das mortes violentas: a disputa por territórios, rotas e mercados ilícitos. A violência letal, nesse sentido, não é aleatória; ela é funcional à economia do crime.

Mas essa explicação, embora verdadeira, é insuficiente.

Facções não operam no vácuo. Elas se expandem, se fragmentam ou se acomodam dentro de um ambiente moldado pela presença, ou ausência, do Estado. O que ocorre no Ceará hoje é resultado de um duplo movimento: de um lado, a reorganização interna do crime; de outro, a pressão crescente das estruturas de segurança pública, especialmente por meio de prisões em massa, inteligência penitenciária e ações preventivas em territórios sensíveis.

O encarceramento intensivo de lideranças e operadores logísticos enfraquece cadeias de comando, dificulta a coordenação de ataques e aumenta o custo operacional das facções. Penitenciárias superlotadas, embora problemáticas sob diversos aspectos, também funcionam como dispositivos de contenção quando associadas a regimes rígidos e isolamento de chefias criminosas. O Estado, ao agir com rigor, altera o cálculo estratégico das organizações: a guerra aberta deixa de ser vantajosa quando a repressão se torna previsível e implacável.

Há, portanto, um efeito combinado. A hegemonia de uma facção reduz conflitos horizontais, enquanto a ação estatal limita a capacidade de verticalização do poder criminoso. O resultado visível é a queda dos homicídios, indicador clássico da violência, ainda que outros crimes possam persistir ou se transformar.

Politicamente, esse cenário é explosivo, sobretudo em ano eleitoral. Governos tendem a reivindicar os números como prova de eficiência; opositores suspeitam de artificialidade ou de pactos informais. A verdade costuma estar no meio-termo incômodo: políticas públicas influenciam, sim, os índices, mas não controlam totalmente variáveis subterrâneas como alianças criminais, disputas internas e fluxos econômicos ilegais.

A experiência internacional confirma essa ambiguidade. Em países da América Latina, no México ou em cidades norte-americanas nos anos 1980-90, como era o caso de Nova Iorque, quedas abruptas de homicídios frequentemente coincidiram com rearranjos do submundo criminal tanto quanto com mudanças nas estratégias policiais. Violência extrema e sua redução obedecem a ciclos, não a soluções definitivas.

O risco, portanto, é interpretar a calmaria como pacificação estrutural. Se a diminuição dos assassinatos decorre, em parte, do fim de disputas abertas, ela pode ser revertida com a mesma rapidez caso novas rivalidades surjam ou o equilíbrio interno das facções se rompa. A história recente do Brasil mostra que hegemonias criminosas são sempre provisórias.

Nesse ambiente, prospera também uma fauna previsível e daninha mo campo da política que transforma a dor coletiva em ativo eleitoral. São aqueles que só aparecem quando o sangue corre, explorando o medo como plataforma e a tragédia como argumento, verdadeiros “gigolôs da violência”. Não propõem soluções, não constroem políticas públicas, não reconhecem avanços institucionais; sobrevivem da perpetuação do caos que dizem combater. Trata-se de uma prática profundamente anticivilizatória, pois sequestra o debate público e reduz a segurança a instrumento de disputa, quando deveria ser um compromisso de Estado e de sociedade.

O papel decisivo do Estado não é celebrar números, mas impedir que a dinâmica da violência dependa exclusivamente da lógica do crime. Segurança pública eficaz não se mede apenas pela queda dos homicídios, mas pela capacidade de impedir que a paz seja ditada pelos próprios atores ilegais.

Em outras palavras: quando as mortes diminuem porque o Estado se fortalece, há avanço civilizatório. Quando diminuem porque uma facção venceu a outra, há apenas silêncio armado.

O desafio do Ceará, e do Brasil, é transformar a primeira hipótese na regra e impedir que a segunda volte a determinar o ritmo da vida social.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

Lula lidera, mas Flávio encosta e vira principal rival, aponta Genial/Quaest; Polarização se mantém

Jogo aberto: PT acena ao centrão em movimento que mira a disputa do Ceará

Sánchez e a coragem de dizer o impopular; Veja instigante artigo do líder espanhol em defesa moral e econômica dos imigrantes

Cearense Pedro Albuquerque assume como CFO do Grupo Pão de Açucar

Pesquisa para o Senado: Wagner lidera em cenários movediços; Veja as simulações

Líder com folga em três cenários, Lula ancora o voto no Ceará

Nova pesquisa: Elmano lidera com a direita fragmentada e empata com Ciro em confronto direto

Série protagonistas: Romeu Aldigueri como fiador da estabilidade

A reorganização da direita e o estreito caminho até o centro

Luiz Pontes e o método do poder silencioso

MAIS LIDAS DO DIA

STJ afasta dano moral automático por dados no cadastro positivo

Justiça determina que Itapipoca utilize apenas procuradores concursados em licitações

TST mantém justa causa de gerente da Ambev por “brincadeira” com bebida adulterada

Lula sanciona reajuste salarial de 2026 para Câmara, Senado e TCU e veta aumentos previstos até 2029

Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Pleno, ex-Voiter e ligado ao caso Master

Prefeitos do Nordeste articulam limite para cachês milionários em eventos com verba pública

O playboy assassino: A pedagogia do mal; Por Walter Pinto Filho

Ceará lidera crescimento do turismo no Nordeste com alta de 7,3% em 12 meses, aponta IBGE

Feira da Indústria terá energia 100% renovável e compensação total das emissões de carbono