De um azul sinistro era a barba daquele ilustre proprietário de terras e de palácios e de riquezas, atemorizando os que o viam, em especial a mocinha que atraíra a atenção dele. Um azul que de pronto a envolvera em um manto de maus presságios – ou um azul da cor do céu, como logo trataram de interpretar a irmã e a mãe dela, admiradas não com o anil da barba (que às duas começava a parecer em tons de cinza), mas com a fortuna do proprietário ilustre. Tão seguro de suas posses, e tão confiante na mocinha a quem fizera sua noiva, o homem dera a ela, e à família dela, pleno acesso a tudo o que ele possuía.
A mocinha recebera dele, e apertara junto ao seio, em suas mãos curiosas, as chaves que abriam todos os aposentos. Ele ia viajar, se afastar por dias e dias, e durante esse tempo a casa a ela pertenceria. Estava livre para exibir o que quisesse, a quem quisesse, para verem os infindos tesouros contidos entre as paredes do palácio.
Assim ela fez. Portas foram abertas e todos viram os imensos espelhos em molduras de marfim onde podiam se enxergar de corpo inteiro. As esculturas em ébano, em alabastro, decoradas com topázios e turmalinas. Os tecidos finos que recobriam os leitos nas dezenas de quartos. As pesadas cortinas em veludo ocultando o brilho do sol. Os gavetões escancarados, expondo as mais delicadas toalhas de banquete. A prataria reluzente, aguardando o momento do uso. Os valiosos aparelhos de louça, xícaras aninhadas em xícaras, torres de pratos.
Uma única chave não chegara a ser introduzida em fechadura alguma: aquela que o ilustre proprietário a proibira, explicitamente, de utilizar. “Não abra a porta daquele quarto, sob o risco de sentir o peso da minha ira” – dissera ele, com o mesmo tom de voz de Deus no Éden, ao proibir Adão e Eva de provarem do fruto da macieira.
Era inevitável: com o sentimento misto de temor e curiosidade, semelhante ao do primeiro casal, a porta proibida foi aberta pela mocinha e na penumbra do quarto, na pupila em pânico dos olhos dela, refletiu-se um amontoado confuso de sangue coagulado e dos corpos das mulheres anteriores do ilustre proprietário. Uma antecipação do destino a ela reservado.
O autor dessa sombria história chamava-se Charles Perrault. Nascido na França, no século XVII, é tido como o pai dos contos de fadas por enfileirar entre suas obras parte do acervo que tem engordado os cofres da empresa Disney: Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Gato de Botas e Cinderela. Por motivos óbvios, Barba Azul ainda não encontrou seu caminho até lá.
A mensagem do conto é evidente, acautelando contra os sérios riscos da curiosidade feminina. “Obedeça ao comando do homem” – é o que se lê em cada uma das entrelinhas. É isso que devem ter ouvido meninos e meninas do século XVII para cá, sentados em volta do contador de histórias, à luz de tochas, absorvendo o principal ensinamento: “Curiosidade mata”.
Li também tal conto, no meu tempo de ler, e estremeci como a jovem estremeceu. Então, eu não podia ser curiosa? Era um defeito grave, aquele meu desejo de abrir gavetas, de vasculhar prateleiras, de investigar o fundo dos armários, revirar livros e papéis? Eram crimes dignos da penalidade máxima? E os homens, estavam eles livres de tal interdição? Tinham o direito de escancarar todas as portas? Pior ainda, o direito de montar armadilhas para as mulheres?
Pois eu suspeitava que aquele homem da barba azul estava determinado a eliminar a mocinha. A chave proibida entregue nas mãos dela servia apenas para acelerar o processo da execução, e transferir para responsabilidade dela algum sentimento de culpa que nele restasse. Ele sabia muitíssimo bem o que estava fazendo, como o protótipo do serial killer que demonstrava ser.
Na continuidade da história, claro que a chave cai dos dedos trêmulos da mocinha, e se suja no chão com o sangue das mortas, e claro que a mancha não sai, por mais que ela esfregue e lave, e claro que o proprietário ilustre volta para casa antes da hora, como planejara, para anunciar a ela a iminência da morte, enquanto ela implora por clemência e tenta retardar o desfecho, mantendo a esperança na chegada salvadora de seus dois irmãos.
Haviam sido avisados para que se apressassem e chegam a galope, invadindo os portões do palácio em uma nuvem de poeira, trespassando com suas espadas o poderoso vilão. No final, como era de lei, ficaram para a viúva todos os bens do falecido: os espelhos e as louças, as pratas e esculturas, os terrenos e castelos.
Em um deles, (e aqui peço perdão a Perrault), ela estabeleceu um lar seguro para as mulheres ameaçadas pelos seguidores do Barbazul. De outro fez uma masmorra para eles, cercada por um fosso onde crocodilos vertiam lágrimas de prazer antecipado. Deu um justo sepultamento às suas antecessoras, casou-se com um homem bom, lindamente escanhoado, e tiveram muitos filhos e filhas aos quais ela transmitiu três lições, frutos da experiência: a primeira, a de que existem homens bons; a segunda, a importância de confiar nos próprios instintos; e por fim, que mantivessem a curiosidade. Sem tão louvável qualidade, mais cedo ou mais tarde o esqueleto dela teria sido um a mais no armário daquele tenebroso aposento.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







