
[Ou o sopro fatídico de Geová e a construção do genoma na obra da criação.]
Começo a dar-me conta, provavelmente com algum atraso, de como os da minha geração e os que me antecederam caíram em estado irrecorrível de obsolescência.
Os que não se tornaram obsoletos, como os filhos e netos, esses ingratos cheios de juventude, logo entrarão nessa categoria de indivíduos remidos de qualquer habilidade útil nestes novos bravos tempos.
Velhinhos, como os da minha idade, armados de algumas sobras de vaidade e do que restou da saúde, metem-se em controvérsias perigosas, e usam, sem cerimônia, o vocabulário empregado pelos novos atores sociais e politicos como encosto dialético,
Ouvir e dar atenção um politico a falar sobre algoritmos ou sobre a necessidade de serem criados controles para domá-los socialmente é como se esperássemos de um pároco da cidade Alegre, justamente no Espírito Santo, palavras edificantes sobre algumas questões pendentes relativas a dogmas teológicos tratados piedosanente pela Congregação da Doutrina da Fé, outrora designada como Tribunal da Inquisição.
Neste quarto de século, talvez menos do que em tão curto tempo, o mundo transformou-se. Aconteceu como se o homem, metáfora rudimentar da condição humana, houvesse empalmado com as suas próprias mãos os segredos da Criação.
Fora como se a “Fórmula de Deus” houvesse sido decodificada e caída por na posse dos mortais.
Apareceu, contudo, nesse entretempo, uma gentinha curiosa, dotada de habilidades insuspeitadas a questionar os propósitos divinos, a imperfeição da “Obra” de Deus, assim como a complexidade da engenharia, que Lhe serviu para o sopro fatídico do barro e a criação dessa criatura travessa à qual foi dado nome com a primeira letra do alfabeto.
Empresários, os valorosos senhores da guerra e da paz, politicos, homens e mulheres públicos — alguns, públicos em excesso — intelectuais, bacharéis produzidos em linha industrial em alguma Faculdade privada de grife ou por atacado. Todos puseram-se a deitar ciência sem que soubessem saber sobre o que falavam, como se de metáforas se houvessem apoderado.
O pior da democracia é quando as criaturas expertas se valem das imunidades que ela oferece para fazer valerem os seus direitos à equidade e a certas virtudes essenciais. Aqueles dotes que o Criador distribuiu comedidamente com as suas criaturas, movido pelo medo de que deles viessem servir-se indevidamente.
Convenhamos, o melhor da democracia, é quando nos permite discordar e criticar dogmas encomendadas, sem que sejamos conduzidos, sob vara, a responder em juízo ou na cadeia por tamanha insensatez.
Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.







