
Há uma contradição incômoda na maneira como vivemos a democracia. Gostamos de falar em diversidade, pluralismo e soberania popular. Mas o entusiasmo diminui quando as urnas ameaçam entregar o poder a quem pensa de modo diferente de nós.
É fácil defender o direito de escolha enquanto acreditamos que a sociedade fará a escolha certa, isto é, a nossa. Bem mais difícil é conviver com a hipótese de que ela decida seguir por outro caminho. É aí, precisamente, que o compromisso democrático é posto à prova.
Em artigo anterior, publicado em 06 de outubro, intitulado “A sede de mudança”, procurei refletir sobre o desejo de experimentar novos caminhos quando as respostas de quem governa já não convencem. Há, porém, uma questão que merece ser enfrentada: aceitamos também a mudança quando ela contraria nossas expectativas?
Essa pergunta vai além das eleições. Diz respeito ao modo como nos enxergamos enquanto comunidade, aos limites que traçamos entre os nossos e os outros e ao preço que estamos dispostos a pagar para conservar nossas certezas.
Uma provocação surgida na cultura brasileira há quase um século ajuda a compreender o problema.
A antropofagia de Oswald de Andrade e a dificuldade de aceitar o outroNo Manifesto Antropófago, publicado em 1928, Oswald de Andrade investiu contra a dependência intelectual e a reprodução automática de modelos estrangeiros. Sua antropofagia não propunha rejeitar aquilo que vinha de fora, muito menos copiá-lo servilmente. Propunha digerir essas influências, confrontá-las com nossa experiência e transformá-las em algo próprio.
Uma de suas formulações sintetiza essa disposição intelectual: “Só me interessa o que não é meu”.¹
A frase pode ser lida hoje também como um desafio à nossa vida política. O que fazemos diante de uma ideia defendida por alguém de quem discordamos? Procuramos entender suas razões ou buscamos imediatamente uma maneira de desqualificá-la? É possível reconhecer algum mérito no argumento contrário sem sentir que traímos nosso grupo?
Tomando por analogia o movimento de Tarsila e Andrade, a atitude antropofágica não exige adesão ao pensamento adversário. Exige disposição para escutá-lo, testar suas premissas, rejeitar o que não se sustenta e aproveitar o que resiste à crítica. É uma forma de independência, não de rendição.
No extremo oposto está a catequese ideológica. Nela, as respostas vêm prontas e a discordância rapidamente se converte em sinal de desvio moral. A discussão deixa de servir à descoberta e passa a funcionar como ritual de confirmação das crenças do grupo.
O resultado é curioso, pois quanto mais falamos sobre diversidade, mais dificuldade temos de suportar seus efeitos concretos.
Quando o adversário político se transforma em inimigo moral
Na política brasileira, essa disposição aparece com nitidez na forma como parte do debate público descreve a ascensão de seus adversários.
Há setores da esquerda que veem na perspectiva de vitória da direita não apenas a derrota de um projeto político, mas o anúncio de uma ameaça à própria democracia. A preocupação pode ser séria e, em certas circunstâncias, fundada. O problema surge quando deixa de depender de fatos e passa a decorrer automaticamente da identidade de quem concorre.
Uma coisa é apontar em um programa político medidas que ofendam direitos fundamentais, comprometam a independência dos Poderes ou coloquem em risco eleições livres. Outra, bem diferente, é afirmar que a chegada de seu proponente ao governo, por si só, configura uma ruptura.
Quando abandonamos essa diferença, substituímos a crítica política por um julgamento moral antecipado: alguns seriam democratas por natureza; os outros teriam de provar, a cada eleição, que merecem participar da disputa.
É a esse fenômeno que chamo de pluralismo assimétrico. Aceitamos que o adversário tenha voz, organize um partido, apresente candidatos e peça votos. Mas, quando sua vitória se torna plausível, passamos a tratar o exercício desses mesmos direitos como uma anomalia.
Assim, o voto confirma a soberania popular quando favorece o nosso campo; se favorece o adversário, logo aparece a tentação de suspeitar da maturidade do eleitorado ou da legitimidade do resultado.
Seria um erro atribuir essa prática apenas à esquerda. A direita também conhece a tentação de demonizar opositores, desacreditar instituições e tratar suas próprias posições como expressão exclusiva da nação. Nenhuma corrente está vacinada contra isso.
A contradição, contudo, ganha relevo especial quando quem reivindica o papel de guardião da democracia começa a tratar a alternância como um perigo em si. O princípio deixa de valer igualmente para todos.
Criticar propostas da direita ou da esquerda é indispensável; negar-lhes legitimidade apenas pelo rótulo ideológico é outra coisa. Uma democracia precisa saber fazer essa distinção.
O medo como instrumento de conservação do poder
Esse raciocínio toca diretamente uma questão do debate eleitoral de 2026: o uso do medo de uma ruptura institucional como argumento para a continuidade de quem governa.
Que peso devemos dar a esse receio quando a ameaça é anunciada de forma genérica, sem a necessária demonstração de propostas e condutas que a sustentem?
Quando a mensagem principal passa a ser a de que somente a continuidade evitará uma catástrofe, abre-se espaço para um deslocamento preocupante do debate. O desempenho da administração deixa de ser a questão central. A condução das contas públicas, a qualidade dos gastos, a política econômica e a resposta aos problemas concretos da população acabam subordinadas a uma disputa sobre quem representa o maior perigo.
Cria-se então uma vantagem retórica para o governante: em vez de convencer pelos resultados, basta apresentar o adversário como risco intolerável. A eleição corre o risco de ser reduzida a um plebiscito sobre o medo.
Lula e o Partido dos Trabalhadores têm todo o direito de buscar a continuidade de seu projeto político. A oposição tem igual direito de propor sua substituição. Não há nada de antidemocrático nessas ambições, desde que exercidas dentro das regras.
O problema começa quando a permanência de um determinado grupo é confundida com a própria preservação da democracia.
É claro que existem ameaças reais e que seria ingênuo exigir que somente fossem denunciadas depois de consumadas. Mas alertas dessa gravidade precisam apoiar-se em atos, propostas, antecedentes e evidências, não em uma presunção de culpa ideológica.
De outro lado, a exploração eleitoral do medo não basta para provar um plano de perpetuação no poder. Uma acusação assim exigiria sinais concretos de tentativa de restringir a competição, instrumentalizar o Estado ou enfraquecer os mecanismos de controle.
Não podemos exigir prestação de contas apenas do adversário. Tampouco podemos aceitar que a promessa de mudança absolva previamente seus defensores de qualquer responsabilidade institucional.
A escolha democrática não deveria ser sequestrada pela ideia de que só existem duas opções: conservar o poder ou entregar o país ao abismo.
A Constituição não pertence a uma ideologia
O mesmo dilema aparece quando se discute a possibilidade de uma nova maioria no Congresso Nacional e de mudanças na Constituição.
Ela estabelece as condições do exercício do poder e, sobretudo, seus limites. Não foi feita para assegurar a vitória contínua de uma corrente, mas para permitir que diferentes correntes disputem o governo sem destruir as garantias comuns.
É evidente que a vontade da maioria encontra limites constitucionais. O artigo 60, § 4º, protege elementos essenciais da ordem democrática, entre eles o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes e os direitos e garantias individuais.
Isso significa que uma vitória eleitoral não autoriza o vencedor a modificar livremente as condições que permitiram sua própria eleição.
Ao mesmo tempo, não há fundamento para tratar toda proposta de mudança constitucional como ilegítima apenas por contrariar a preferência de determinado grupo. O que importa é o conteúdo da alteração, o procedimento seguido e seus efeitos sobre direitos e instituições.
O critério precisa ser o mesmo para todos: o conteúdo das medidas, sua compatibilidade com a Constituição e suas consequências para a preservação da liberdade política.
O verdadeiro risco não reside simplesmente na vitória da esquerda ou da direita. Reside na possibilidade de qualquer uma delas, uma vez no poder, pretender transformar sua autoridade temporária em domínio permanente.
Uma maioria pode mudar os rumos do país. Não pode transformar o Estado em propriedade sua.
É quando os limites constitucionais frustram as nossas próprias preferências que se mede a firmeza de nosso compromisso com eles.
Patrícia Ciríaco, a obra do Tannat e o problema filosófico do “nós”
A discussão também me faz retornar a uma obra artística que oferece uma chave inesperada para o problema.
Na canção Nós, composta por Patrícia Ciríaco, Alana Alencar e Taylor Costa e integrada ao álbum O verso da língua, da banda cearense TANNAT, encontro uma pergunta aparentemente simples, mas de grande alcance: quem cabe no pronome com que nos definimos?
A inspiração em Nietzsche, apontada por Patrícia, seu filósofo de maior inspiração, abre espaço para outra inquietação: quanto de nossa identidade depende de convicções que raramente nos dispomos a examinar?
“Nós” é palavra de vínculo, afeto e pertencimento. E é também uma palavra capaz de marcar fronteiras. Quando dizemos “nós”, sempre existe o risco de construir, mesmo sem perceber, um “eles” do lado de fora.
Esse limite não é necessariamente ilegítimo. Comunidades precisam de referências comuns. O perigo aparece quando pertencer passa a exigir a incapacidade de compreender quem não pertence.
Quando um grupo passa a identificar a democracia com suas próprias preferências, o adversário já não discorda apenas de um projeto de governo. Ele parece ameaçar o próprio sentido de comunidade que aquele grupo construiu. É assim que uma divergência legítima pode ganhar a aparência de uma ofensa pessoal.
Nietzsche nos convida a desconfiar da origem e da força de nossas certezas. Nem toda convicção é fruto de um exame desinteressado; algumas também respondem à necessidade de pertencimento, ao medo ou ao desejo de ter razão.
Reconhecer essa possibilidade não destrói nossas convicções. Apenas nos impede de colocá-las acima de qualquer questionamento.
A referência ao “fim de Carnaval”, presente na canção, sugere ainda outra imagem. No Carnaval vestimos máscaras, experimentamos personagens, alteramos por um instante as convenções do cotidiano. E quando a festa termina, somos devolvidos ao que existe por trás da fantasia.
Na vida pública, talvez nos falte justamente esse encontro com o real.
Nenhuma corrente reúne sozinha toda a razão, toda a honestidade ou toda a sensibilidade social. Admitir isso não significa negar que existam práticas políticas mais ou menos graves, nem apagar responsabilidades históricas. Significa, apenas, deixar que os fatos falem mais alto do que a necessidade de proteger a própria tribo.
Um “nós” que só permanece unido enquanto rejeita o diferente pode oferecer conforto identitário. Dificilmente oferecerá uma base sólida à convivência democrática.
A democracia e a coragem de perder
Tocqueville percebeu que a democracia não depende apenas de eleições e desenhos institucionais. Ela também precisa de hábitos de convivência, de associações, de uma cultura que reconheça legitimidade às diferenças.
Isso acontece quando uma derrota deixa de ser compreendida como resultado político e passa a ser vivida como humilhação intolerável; ou quando a vitória é recebida como licença para reduzir o espaço dos derrotados.
Há uma coragem pouco celebrada na democracia: a de perder.
O derrotado não é obrigado a concordar, calar ou deixar de fiscalizar. Deve conservar intacto seu direito de oposição. Mas precisa aceitar que a sua discordância, por si só, não retira legitimidade de uma escolha feita segundo as regras.
O vencedor, por sua vez, recebe um mandato temporário, não a escritura do país. Eleições não apagam o eleitor que votou no outro lado. Quem governa continuará sujeito à Constituição, aos controles e à possibilidade de ser substituído.
Um teste útil para nossas convicções é perguntar se defenderíamos a mesma regra caso ela beneficiasse quem combatemos.
A liberdade de expressão vale também para opiniões que nos desagradam, observados os limites constitucionais. A independência das instituições merece respeito igualmente quando suas decisões frustram nossas expectativas. Quanto à alternância, sua importância não diminui quando o nosso grupo passa a correr o risco de perder.
O desafio de construir um “nós” que não exclua o outro
Volto a Oswald de Andrade porque sua provocação ajuda a reunir os fios desta reflexão.
Precisamos de uma antropofagia das ideias: a capacidade de ouvir e processar o que vem de fora do nosso círculo, sem submissão e sem pânico. A diferença pode contrariar nossas convicções, mas também pode revelar suas fragilidades e melhorar nosso julgamento.
O ponto é outro: discordar sobre o futuro do país não torna impossível continuar vivendo no mesmo país.
A esquerda deve reconhecer que a direita pode chegar legitimamente ao governo. A direita deve admitir que o voto não lhe dá carta branca para ultrapassar os limites constitucionais. A mesma medida deve ser aplicada a todos, inclusive quando isso for politicamente inconveniente.
O medo do futuro merece ser ouvido, mas não pode servir como substituto permanente do exame do presente.
Riscos reais exigem resposta firme. Mudanças legítimas, ainda que desagradáveis para uma parcela da sociedade, exigem disputa política, crítica e disposição para conviver com o resultado. A diferença entre uma coisa e outra precisa ser demonstrada. É esse trabalho, menos vistoso que a troca de acusações, que qualifica uma democracia.
O Brasil não precisa de unanimidade. Precisa conseguir atravessar conflitos sem converter em inimigos permanentes todos os que votam de modo diferente.
A democracia se empobrece quando deixamos de discutir se o adversário tem razão e passamos a discutir se ele deveria ter o direito de participar.
E a pergunta que a antropofagia de Oswald, relida, por mim, à luz da canção “Nós”, de Patrícia Ciríaco, Alana Alencar e Taylor Costa, da banda cearense Tannat, nos devolve é esta: se a nossa identidade depende de expulsar o diferente, o que exatamente estamos tentando preservar?
Convém devorar algumas de nossas próprias certezas. Não para viver sem princípios, mas para evitar que eles se convertam em dogmas.
A democracia só será verdadeiramente nossa quando aceitarmos, sem ressalvas oportunistas, que ela também pertence a quem não pensa como nós.
Nota de rodapé
¹ O Movimento Antropofágico, surgido em 1928 no contexto do modernismo brasileiro, teve como principais expoentes Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Inspirado, entre outros elementos, na obra Abaporu (1928), de Tarsila, e sistematizado no Manifesto Antropófago, de Oswald, o movimento propunha uma ruptura com a reprodução passiva dos modelos culturais europeus, defendendo a assimilação crítica das influências estrangeiras e sua transformação em uma expressão cultural autenticamente brasileira.
Referências bibliográficas
ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, São Paulo, ano 1, n. 1, maio 1928.
CIRÍACO, Patrícia; ALANA, Alencar; TAYLOR, Costa. Nós. In: TANNAT. O verso da língua.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracy in America. Chicago: University of Chicago Press, 2000.








