
Há 20 anos Portugal encerrou o seu ciclo colonial com o retorno de Macau ao domínio da China. De lá para cá, esse pequeno território procurou afirmar a sua identidade e me parece que manteve intacta a característica que lhe permitiu por séculos, ser uma conexão singular entre o Oriente e o Ocidente, um entreposto ou um hub, para usar a expressão mais moderna.
A recente decisão do governo chinês de impulsionar a integração dos territórios em torno do delta do Rio das Pérolas e de apontar Macau como elo de ligação com os países de língua portuguesa permitirá, em poucos anos, transformar a região na maior potência metropolitana global. A região, denominada de a Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau abrange os territórios de Hong Kong e Macau e nove cidades pertencentes à província de Guangdong (Cantão). Sua área total tem mais de 69 milhões de habitantes, um PIB combinado de mais de US$ 1,5 trilhão e que, atualmente, já é a terceira maior economia urbana do mundo, depois de Tóquio e Nova Iorque.

Para se ter uma ideia do que a Grande Baía significa, ela equivale a 1/3 do território estado do Ceará, um pouco mais do que população da região nordeste do Brasil e aproximadamente 7 vezes o PIB combinados dos seus 9 estados. Mas amanhã será diferente: estima-se que até 2030 a Baía Guangdong – Hong Kong – Macau deverá ter um PIB de US$ 4,6 trilhões, tornando-se um centro de manufatura avançada, assim como um centro global em inovação, finanças, transporte e comércio, ultrapassando Tóquio, Nova York e São Francisco.
Para Macau, além da plataforma de serviços financeiros, prevê-se o estabelecimento de um sistema de garantias de crédito à exportação, o desenvolvimento de centro de compensação da moeda chinesa (renmimbi) para os países de língua portuguesa e a sua transformação num centro internacional de turismo e lazer. Do mesmo modo, o seu papel de plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa deverá ser reforçado, através de políticas de desenvolvimento na comercialização e distribuição de alimentos, de serviços financeiros, no intercâmbio cultural entre a China e os países lusófonos, no desenvolvimento de um centro de intercâmbio de inovação e empreendedorismo para os jovens sino-lusófonos, entre outros.
Foi isso e muito mais que vi e ouvi há uma semana quando estive em Hong Kong, Macau, Shenzhen e Foshan para participar da Feira Internacional de Macau e de uma série de encontros em torno dessa ligação entre essa região e os países de língua portuguesa, bem como preparar terreno para a recepção que faremos em Fortaleza no próximo mês de novembro de uma delegação proveniente de Macau formada por representantes da sua agência de promoção do comércio e investimento (IPIM) e por vários advogados. Eles vêm conhecer o nosso ambiente de negócios e a nossa estrutura jurídica, especialmente, vinculada à arbitragem e mediação.
Ver que Macau somente reencontrou seu elo internacional, na medida em que olhou e se associou às suas vizinhas chinesas, a fim de expandir a sua representatividade, remete-me ao status que Fortaleza deve almejar e já tive oportunidade de tratar em artigos anteriores: tornar-se uma metrópole regional de negócios conectada com o mundo, em face da sua malha aérea, digital e marítima. Entretanto, os investimentos feitos no estado, por exemplo, no Complexo Industrial e Portuário do Pecém para assegurar essa qualidade de ligação com o mundo, não se justificam se não forem para também conectar e servir às economias de outros estados do Nordeste, em especial, o interior do Maranhão, Piauí e Tocantins, além do Rio Grande do Norte e Pernambuco.
Vejo que existe uma excelente oportunidade de a cidade de Fortaleza se posicionar como o mais importante centro de negócios na região Nordeste do Brasil, induzindo-se a criação de um entreposto de negócios e de distribuição de produtos. Além disso, acredito na capacidade que Fortaleza tem de desenvolver um ambiente propício aos serviços relacionados à solução de controvérsias em negócios internacionais através, por exemplo, do Centro de Mediação e Arbitragem da Câmara Brasil Portugal, que conta com o apoio da FIEC e é voltada para disputas associadas ao comércio e investimento estrangeiro.
Antevejo que uma maior intensidade na integração regional por parte do Ceará pode ser bastante oportuna para que o estado e, em especial, Fortaleza, atraiam o olhar das empresas chinesas interessadas em fazer negócios por aqui nas áreas de infraestrutura, como saneamento básico e transportes, bem como a indústria do turismo e na economia digital. Para isso, a utilização de Macau como ponto de interlocução com a China, significa nosso menor custo de transação, quer pelo fator da língua, quer pelo investimento que esse território tem feito para estabelecer laços cada vez mais fortes com os mercados de língua portuguesa. É para lá, portanto, que devemos olhar.







