O dilema da governabilidade, por Rui Martinho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A governabilidade é um velho repto com que se defronta a sociedade brasileira. Jânio da Silva Quadros (1917 – 1992) chegou a dizer que o Brasil só poderia ser governado a pau. José Sarney de Araújo Costa (1930 – vivo) declarou que o Brasil seria ingovernável com a CF/88. Stuart Burton Schwartz (1940 – vivo), na obra Burocracia e sociedade no Brasil colonial, descreve o ambiente de improbidade administrativa, barganha política, arbitrariedade e corrupção envolvendo a suprema corte da Bahia e seus juízes, entre 1609 e 1751.

A governabilidade, desde então, é um verdadeiro trabalho de Hércules em nosso país. O autoritarismo foi tentado sucessivas vezes como solução para o problema. O Marquês de Pombal ou Sebastião José de Carvalho e Mello (1699 – 1782) tentou a via do autoritarismo, reforçando esta prática que vigorava em Portugal. O Estado Novo varguista tentou, com apoio do tenentismo do “Club 3 de Outubro”, o mesmo caminho trilhado por Pombal. O consulado militar iniciado em 1964 repetiu a tentativa. Os três momentos de intensificação do autoritarismo tradicional fizeram algumas realizações importantes. Não conseguiram, porém, introduzir uma mudança de costumes políticos, administrativos. Leis que “não pegam”, leniência com improbidade, barganha política nada republicanas, tolerância com amotinados ou invasores de propriedades continuam presentes.

Formação histórica, do ponto de vista das instituições por Raymundo Faoro (1925 – 2003); da cultura, conforme Clodomir Vianna Moog (1906 – 1988), têm sido estudados ao lado de outros fatores por autores diversos. A via constitucional democrática também foi tentada e produziu valiosas realizações no institucional e social, mas tomou o caminho do presidencialismo de cooptação, com improbidade, clientelismo e outros vícios. Os tempos históricos, na visão de Ferdinand Brauldel (1902 – 1985), podem ser de curta, média e longa duração. As práticas nada republicanas e o desapreço pela normatividade social parecem fazer parte do terceiro destes ritmos na nossa caminhada histórica.

O agravamento do uso abusivo do munos publicum causou revolta, malgrado sermos um povo tolerante com o absurdo. Toleramos tudo. Até mais assassinatos entre nós do que as baixas de um exércitos em guerra. Macunaíma, personagem criado por Mário Raul Morais de Andrade (1893 – 1945), personifica alguém qualificado como sem nenhum caráter, defendido por alguns como representante da tolerância do brasileiro. Outros consideram o personagem citado como indiferente e até conivente com todo desvio de conduta.

Mas até o Macunaíma horrorizou-se com a escala dos escândalos políticos e com a mudança cultural forçada pelos novos gestores da moral e dos costumes. Reagiu. Optou por uma ruptura com as práticas que repudiou. Como romper, porém, é o nó górdio do problema. O autoritarismo não convém e não soluciona. A cooptação aprofundou a degradação dos costumes. Surgiu a administração pelo conflito, praticada nos EUA e outros lugares. Mas no Brasil as instituições não são tão sólidas. Nossos partidos são ainda menos representativos. Algumas vitórias foram alcançadas pela mobilização popular passando ao largo das instituições, açulando a militância, conforme estilo diverso do caminho institucional; ou apesar do conflito, dizem alguns.

Ruptura, porém, não se faz com punhos de renda. Mas existem limites para o conflito dentro do ordenamento institucional. Vencerão as reformas e a transformação dos costumes políticos? Ou voltaremos ao reino da propina e do loteamento do serviço público para fins de enriquecimento?

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Ciro Gomes mantém marca histórica: votação de 2006 para Federal equivaleria a quase 894 mil votos hoje

Grupo Marquise avança 99 posições no Valor 1000 e chega ao 2º lugar em Construção e Engenharia

A demonização da oposição; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Em Fortaleza, a sucessão de 2028 começa agora; Por Ricardo Alcântara

João Santana pode voltar para Lula após fazer a campanha de Ciro contra o PT

Sebrae realiza dois grandes eventos sobre inovação e educação empreendedora

Café da Oposição é dizimado nas urnas: só um dos principais articuladores consegue se eleger

Ceará registra maior crescimento da votação bolsonarista no Nordeste desde 2018

Bancada feminina no Congresso será a maior da história