A história de um armador. Por F J Caminha

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Sem anunciar a presença, entrei no quarto em passos curtos como quem silenciosamente invade um santuário. Prostada na cama a encontrei em meditação com os olhos pousados sobre pequenos objetos religiosos dispostos com rigor quase litúrgico aos pés da imagem de Nossa Senhora de Fátima. Surpresa com a insperada chegada, seus olhos brilharam alegremente e antes que pronunciasse qualquer palavra, ela se antecipou com a voz firme:

— Saiba que sua mãe é muito feliz aqui, deitada nesta cama.

Com um gesto lento, como se retirasse um véu, apontou para um dos objetos sobre o altar e fez uma solicitação:
— Meu filho, pegue aquele armador ali.
Segurei na mãos um simples gancho de metal, já um pouco gasto pelo tempo e a entreguei. Ela o segurou como quem toca uma peça sagrada, então indaguei:

— Mamãe, por que a senhora colocou isso ao lado da Santa?

Ela discretamente sorriu e respondeu:

– Este velho armador de redes é o símbolo do amor que recebi de minha mãe. Quando eu era menina, sua avó o usava para deixar minha rede bem baixinha, quase tocando o chão, para que eu não caísse. Depois, serviu a você e depois usei na rede do seu irmão.
Logo comecei refletir no valor simbólico daquele frio metal que protegeu nossos corpos enquanto dormíamos, testemunhou noites febris, medos, choros, risos e sonhos. Não era mais apenas um gancho, mas sim o relicário do amor que sustentou gerações e transitou por três cidades, quatro mudanças, e ainda assim permanecera com ela, ganhando um lugar de destaque como sinal visível de uma realidade invisível das memórias afetivas.
Tempos depois, observei que ela o retirou do altar e passou a utilizá-lo até quando pode para reduzir a altura da sua própria rede armada ao lado da cama. O mesmo ferro que um dia ajudou a segurar uma criança, voltava agora a sua finalidade, proteger o corpo frágil de uma anciã, sendo testemunha perene e silenciosa de reflexões guardadas nos escaninhos de memórias saboreadas na reflexão que gerava o estado de felicidade que ele se reportou.
Deitada ímóvel no leito, ela me disse mais de uma vez:

— Sou feliz sozinha porque saboreio a riqueza de meu mundo interior.

O poder oculto de um símbolo só pode ser descoberto por quem reflete, observa a si mesmo e estabelece um diálogo interno, no entanto, vivemos no mundo dos conectados na busca de prazer instantâneo que desconsidera o que não tem valor comercial, o que não se compartilha, o que não rende e o que não viraliza. Assim, vivemos o paradoxo quanto mais prazer nos estímulos das conexões dos conetactos, mais distantes de nós mesmos somos e infelizes ficamos.
Ela comprovou em vida o que narrou uma vez o aeronauta e escritor Saint-Exupéry:
— O essencial é invisível aos olhos.

Francisco Caminha é escritor, advogado, especialista em Ciência Política e servidor público. Foto: Divulgação

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