A Mão de Xi. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Quando se aventura em empreender na China ou mesmo o ato de comprar ações de empresas chinesas, os investidores sempre consideram no cálculo o risco de forte regulação do governo, em diversos aspectos, algo que já se tornou muito comum para os investidores globais.

Entretanto, o que está ocorrendo hoje no mercado de ações da China é algo sem precedentes na história. O governo de Pequim começou a editar regras e regulamentos para diversos setores econômicos, o que foi iniciado com a Ant Financial do bilionário Jack Man, dono do AliBaba, que praticamente interrompeu seu IPO, que deveria ser o maior da história.

Entretanto, recentemente o governo restringiu novas emissões de IPOs e editou um conjunto de novas regras para as empresas de educação privada, o que praticamente despencou em até 80% a cotação dessas ações. O que se projeta em breve é que essas novas regras deverão desintegrar um mercado de 100 bilhões de dólares na China, muito focado hoje na educação privada.

Mas por que isso está ocorrendo? Por que Pequim altera as regras de setores econômicos que afetam negativamente suas próprias empresas? Existe aí um efeito importante sobre a desigualdade e sobre poder de mercado. Existe uma diretriz na China que reconhece que certos grupos econômicos tornaram-se grandes demais e poderosos demais, tornando-se um risco para a estabilidade financeira e em alguns casos um risco político para um país de partido único. Nesses casos, como não existe um sistema de pesos e contrapesos, em que as empresas não podem ir contra as diretrizes governamentais, Pequim opera por meio de regras e decretos que alteram o funcionamento dos mercados para conquistar seus objetivos políticos.

Outro fator que influencia essas ações é a desigualdade, e o setor educacional privado é um dos principais setores em que a desigualdade é acentuada, pois são cobrados valores altíssimos para os pais dos alunos, confirmando-se que apenas os mais ricos podem pagar, e esses alunos tornam-se ainda mais competitivos contra o resto da sociedade. Isso obviamente acontece em todos os países, mas a China já começa a ver isso com ‘maus olhos’.

Neste contexto, podemos ter uma visão mais ampla e destacar que setores econômicos, nos quais os benefícios privados ficam restritos a pequenos setores da sociedade, em que a acumulação de riquezas torna-se cada vez mais concentrada, parece não serem mais vistos como algo interessante para a sociedade chinesa, o que os torna alvos de regulações e “crackdowns” por parte de Pequim.

Na situação que ora nos deparamos, investidores do mundo inteiro tornaram-se alvos indiretos, pois não se sabe qual será o próximo setor econômico a sofrer com novas regulações do governo e por isso há uma quantidade considerável de venda de ativos na China e em Hong Kong.

O mais recente alvo foram as empresas de entregas que agora devem pagar um piso mínimo aos funcionários, respeitando direitos trabalhistas e garantindo regras negociadas com sindicatos. As ações dessas empresas despencaram 20% e semanalmente novos setores empresariais são impactados com políticas que visam diminuir as desigualdades crescentes na China, mas ao mesmo tempo põem abaixo as cotações dessas ações.

Apesar de não concordar com a maneira de como a China está buscando resolver o problema, de modo Top-Down, é claro que a desigualdade se tornou o maior problema do capitalismo, seja na China, nos Estados Unidos ou no Brasil. Assim vivemos essa realidade!

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