
Por Fábio Campos
A direita brasileira sofre menos por falta de lideranças do que por excesso de ruído. Trocando em miúdos, muitas vozes, pouca coordenação. A semana passada pode ter marcado uma inflexão relevante: pela primeira vez desde 2022, o campo conservador voltou a funcionar como sistema, com centro de gravidade, hierarquia tácita e objetivo compartilhado. O fato foi muto bem analisado por Sergio Denicoli, no Estadão.
O vetor dessa reorganização não foi institucional. Foi simbólico. Nikolas Ferreira, ao transformar uma caminhada física em narrativa política, produziu algo raro: converteu engajamento disperso em presença organizada. Não se tratou de um ato espontâneo nem de um simples revival bolsonarista. Foi uma ação cuidadosamente ancorada na ideia de, digamos, percurso, sacrifício e pertencimento, elementos que, na política contemporânea, têm mais potência do que programas ou manifestos.
A força do gesto não esteve no discurso, mas na forma. Ao partir do offline para dominar o online, a estratégia inverteu a lógica habitual das redes. A política deixou de ser apenas performance digital e voltou a ocupar o espaço público. O resultado foi imediato: redução de disputas internas, alinhamento de influenciadores e parlamentares, e reativação de um senso de bloco que a direita havia perdido.
Nesse rearranjo, Nikolas operou como catalisador, não como candidato. Seu papel foi o de organizador do campo. Ou seja, alguém que centraliza pauta, ordena símbolos e empurra lideranças para um mesmo eixo sem reivindicar protagonismo e personaismo eleitoral imediato. Esse detalhe é crucial para entender o que podemos considerar um segundo movimento da semana.
A partir da caminhada de Nikolas, Flávio Bolsonaro emergiu fortalecido não por ter mobilizado massas, mas por ter sido reposicionado dentro de um ecossistema que pode ser considerado funcional. Os dados de redes (citado pelo autor do artigo) indicam uma inflexão clara: crescimento da associação entre seu nome e atributos como confiança e liderança. Não se trata de carisma próprio, mas de transferência de sentido. Flávio passa a existir politicamente como parte de uma engrenagem maior, que lhe fornece lastro simbólico e coerência narrativa.
Há, contudo, um limite evidente nesse avanço. A reorganização recupera o repertório de 2022. A saber: antiesquerdismo, moralidade, religiosidade. Isso, sem, até agora, produzir qualquer atualização programática. O Brucutu continua Brucutu. O movimento é eficiente para consolidar a base, mas insuficiente para expandi-la. Funciona como cola interna, não como ponte externa.
Esse limite aparece com nitidez quando se observa a fotografia atual do eleitorado brasileiro. Pesquisa recente da Quaest indica um país politicamente fraturado em cinco grandes grupos. De um lado, 19% de lulistas e 14% de esquerda não lulista. Portanto, um bloco de 33%. ou 1/3 do eleitorado. Do outro, 12% de bolsonaristas e 21% de direita não bolsonarista. Outro bloco de 33%. No meio, um contingente decisivo: Mais ou menos 32% de eleitores independentes.
O dado mais relevante, porém, não é o tamanho desse centro difuso, mas sua disposição. Pelos dados da pesquisa, tão bem avaliados pelo especialista em marketing político, Filipe Teixeira de Araújo, a maior parte desses independentes está desanimada, apática e distante do processo político. Desses, apenas cerca de 10% tendem efetivamente a votar. É nesse espaço estreito, claramente menos ideológico, mais pragmático, mais volátil, que a eleição será decidida.
Isso reorganiza o tabuleiro. No fundo, Lula, Flávio, Tarcísio, Zema, Caiado, Ratinho e qualquer outro que se apresentar, disputam a mesma coisa: convencer a mente e conquistar o coração de apenas 10% do eleitorado. Dessa forma, a política deixa de ser guerra de exércitos e passa a ser disputa por convencimento fino, quase cirúrgico.
Do lado do governo, a estratégia é clara. Lula opera em chave material, não simbólica. Emprego, renda, inflação dos alimentos e desigualdade são apresentados como experiências concretas do presente. Essa narrativa conversa diretamente com o eleitor moderado, menos mobilizado por identidades políticas e mais atento ao impacto direto no cotidiano.
Nesse contexto, temas como o desequilíbrio fiscal perdem centralidade no debate público. Permanecem relevantes no plano técnico, mas não organizam emoções nem votos. Projeções futuras competem mal com percepções imediatas. O eleitor entende melhor o preço no supermercado do que o risco fiscal em gráficos de médio prazo.
A eleição não será vencida por quem gritar mais alto para os seus, mas por quem conseguir traduzir sentido político para os poucos que ainda estão dispostos a escutar. É nesse intervalo estreito, instável e decisivo que a disputa presidencial será definida.







