
Dois pontos resumem os números recém-divulgados pela mais recente pesquisa Quaest:
1. Desempenho geral do presidente
A pesquisa é negativa para o presidente Lula. Em todos os quesitos comparáveis com levantamentos anteriores da própria Quaest, o desempenho de Lula piorou.
Na pesquisa de janeiro, por exemplo, a desaprovação superou a aprovação pela primeira vez. Agora, essa rejeição cresceu ainda mais — sinal de deterioração contínua da imagem do governo.
2. Percepção pessoal de Lula
O problema não se resume à avaliação do governo, mas atinge diretamente a figura de Lula como presidente.
Um dado simbólico: pela primeira vez, o número de entrevistados que não acham Lula bem-intencionado (44%) supera o dos que acham (40%).
Isso aponta para uma fissura relevante em sua imagem, com efeitos mais profundos que simples oscilações na popularidade.
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A falha da “estratégia Sidônio”
Diante da queda nas pesquisas, Lula adotou uma estratégia clara: intensificou entrevistas, viajou pelo país, lançou pacotes de bondades — como o aumento do salário mínimo para R$ 1.412 —, mas os resultados foram o oposto do esperado.
É como alguém que aumenta o volume do rádio esperando atrair mais ouvintes — e, no entanto, ninguém sintoniza na estação.
A comunicação não tem surtido efeito. Embora tenha falado mais, 50% dos entrevistados dizem que Lula tem aparecido menos — um indicativo de que ele não está sendo ouvido ou percebido pela população.
Mais preocupante: para 50% das pessoas, quanto mais Lula aparece, pior fica a imagem dele.
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O fantasma da desaprovação
Esses números surgem na véspera de um megaevento do governo, marcado para exaltar os feitos de Lula nos dois anos e quatro meses de mandato.
Mas o evento ocorrerá sob a sombra de uma rejeição crescente.
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Desgaste por segmentos sociais e geográficos:
• Mulheres: A aprovação entre elas caiu. Ainda é maior que a reprovação, mas em queda.
• Nordeste: Região historicamente favorável ao presidente, também apresenta sinais de cansaço.
• Religião: A rejeição entre evangélicos subiu como nunca. Entre católicos, também cresceu.
Resumo: Lula piorou em todos os campos avaliados.
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Reforma ministerial em meio à crise
A pesquisa chega num momento delicado: o governo negocia uma reforma ministerial com partidos do centrão, como PP e União Brasil.
A fragilidade nas pesquisas enfraquece Lula nessas negociações.
Lideranças como Ciro Nogueira (PP) já sinalizaram publicamente a insatisfação dentro dos partidos, que mesmo tendo ministros no governo, se dizem de oposição.
Com o enfraquecimento político, cresce a pressão por mais espaço nos cargos de segundo e terceiro escalões — Banco do Brasil, Caixa, autarquias e estatais.
Num cenário de baixa aprovação, os aliados tendem a cobrar mais do que Lula estava disposto a ceder.
O risco maior é começar a debandada partidária da base de Lula na medida em que a expectativa de poder se esfarela.
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Impacto nas eleições locais de 2026
A rejeição crescente a Lula tem potencial para comprometer a viabilidade eleitoral de governadores mais alinhados à esquerda — especialmente os que pretendem disputar a reeleição.
No Ceará, por exemplo, Elmano de Freitas (PT) chega à metade do mandato em meio a esse cenário adverso.
A dependência do prestígio presidencial, sobretudo no Nordeste, pode se transformar em fardo se a tendência negativa se mantiver.
O que antes era ativo político pode virar passivo de campanha.