
A possibilidade de Camilo Santana assumir o Ministério da Justiça expõe, de forma cristalina, uma tensão recorrente no governo Luiz Inácio Lula da Silva: a dificuldade de conciliar estratégia eleitoral, equilíbrio federativo e governabilidade no Congresso. No entanto, a notícia (veja aqui) se baseia em uma articulação no âmbito do PT, envolvendo o deputado federal José Nobre Guimarães e a ministra Gleisi Hoffmann, que teriam feito embaixadas junto ao presidente Lula. A base de tudo é a esperada saída de Ricardo Lewandowski da pasta.
Do ponto de vista técnico-político, Camilo é um nome forte. Poucos quadros do PT reúnem, ao mesmo tempo, experiência executiva robusta, trânsito no Parlamento e vivência direta com o problema central da pasta — a segurança pública. Como governador do Ceará por dois mandatos, enfrentou tanto o avanço das facções criminosas quanto episódios agudos de crise institucional, como motins policiais. Esse histórico o credencia para um Ministério da Justiça que, como avalia o próprio Planalto, precisa ser mais político, mais combativo e menos protocolar.
Mas é justamente aí que a equação se complica.
A leitura feita nos bastidores, e corretamente registrada pelo jornal O Povo, é que a possível nomeação de Camilo teria efeitos colaterais profundos no tabuleiro eleitoral do Ceará. Ao assumir o Ministério da Justiça, ele ficaria impossibilitado de se desincompatibilizar a tempo, tornando-se automaticamente carta fora do baralho na disputa pelo Governo do Estado em 2026. Isso altera todo o equilíbrio interno do grupo governista.
Para Elmano de Freitas, pode-se dizer que o movimento seria positivo: Camilo na Jusiça encerraria imediatamente a especulação sobre uma eventual candidatura dele ao Governo do Ceará, eliminando uma conversa que fragiliza o governador. Ao mesmo tempo, sua candidatura à reeleição, já livre de dúvidas, se fortaleceria com o discurso da parceria direta com Brasília no enfrentamento ao crime organizado. Mais do que isso, Elmano ganharia um ativo político concreto: a possibilidade de vincular sua gestão estadual a ações federais de grande escala na área de segurança.
Há ainda um componente estratégico mais profundo. Caso Camilo sente na cadeira do Ministério da Justiça, o governo Lula teria a chance de testar, na prática, uma ideia defendida há anos (veja aqui) por Ciro Gomes: a federalização do combate às facções criminosas. A diferença é que, agora, essa agenda deixaria de ser retórica oposicionista e passaria a ser política pública executada pelo PT , com todos os riscos e ônus que isso implica.
Do ponto de vista nacional, Lula também ganha e perde. Ganha ao colocar na Justiça um ministro com capacidade real de articulação política e conhecimento federativo. Perde (algo relativo) ao retirar do radar eleitoral um dos seus quadros mais competitivos nos estados.
Em síntese, a eventual ida de Camilo Santana para o Ministério da Justiça não é apenas uma troca ministerial. É uma decisão que tende a reorganizar forças no Ceará, finda as especulações sobre e revandidatura de Elmano, redefine o discurso do governo federal sobre segurança pública e antecipa, silenciosamente, a lógica das eleições de 2026. Como quase tudo em Brasília, o debate é menos sobre currículo e muito mais sobre cálculo.






