Ciro contra Ciro: o inimigo agora é estadual

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Contexto
Um ataque a tiros na Escola Estadual Luiz Felipe, em Sobral (CE), deixou dois estudantes mortos e outros três feridos. A Polícia apontou relação com disputa entre facções. O episódio reacendeu o debate sobre a violência no estado — que tem convivido há anos com facções enraizadas e taxas altas de homicídios.

Poucas horas após o crime, o ex-governador Ciro Gomes, ainda no PDT, publicou uma mensagem agressiva nas redes sociais, dizendo que o atual governador Elmano de Freitas (PT) e o ministro da Educação Camilo Santana (PT) tinham “as mãos sujas de sangue inocente mais uma vez”. Segundo Ciro, o Ceará estaria entregue à “roubalheira e à politicagem”, sem medidas concretas para conter a mortandade causada pela criminalidade organizada.

Comentário crítico
A fala de Ciro é dura, mas revela muito sobre a sua opção de jogo político. Ele governou o estado nos anos 1990, manteve influência decisiva em absolutamente todos os governos que vieram depois e seu grupo comandou a segurança pública por mais de uma década. Em certo momento, no Governo de Cid Gomes, se envolveu pessoalmente assumindo o papel de eminência parda do setor. Portanto, as estruturas policiais e a estratégia de enfrentamento às facções — hoje criticadas — nasceram sob essa gestão que ele próprio ajudou a moldar.

Ao responsabilizar Elmano e Camilo, Ciro busca se descolar desse passado e tenta reposicionar sua imagem após perder força política para o PT, seu ex-aliado por tempos, que atualmente comanda o governo estadual e lidera o Governo Federal. O tom indignado atende a uma necessidade eleitoral: marcar território e culpar seus ex-aliados por um problema que, em grande medida, se agravou durante a era em que seu grupo governava. Diga-se, de quebra, que tal problema é comum a praticamente todos os estados da Federação.

Esse tipo de manifestação é um movimento estratégico e não exatamente uma reação moral. A tragédia vira um palco para a disputa de narrativa — menos sobre apresentar soluções reais para a segurança e mais sobre sobreviver politicamente num cenário em que Ciro se coloca, mesmo que ainda veladamente, como candidato a governador.

Em 2022, em entrevista (veja trecho abaixo) à Globo, Ciro Gomes disse que o combate às facções deveria ser liderado pelo governo federal, porque os estados não teriam estrutura para enfrentar organizações criminosas de alcance nacional.

Agora, diante do massacre em Sobral, ele culpa apenas Elmano de Freitas e Camilo Santana, como se a crise fosse exclusivamente estadual e tivesse surgido sob o PT. O giro revela um discurso moldado pela disputa política atual — distante da própria análise que Ciro defendia poucos anos atrás.

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