Lia Gomes lê o presente, mas a política exige construção

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A fala da deputada estadual Lia Gomes (PSB) situa bem o momento no qual Ciro Gomes é (re)lançado por Aécio Neves no marcado político nacional. Sua fala faz um retrato fiel do agora. Sem maquiagem. Sem ilusão. “Não vejo esse clima para isso aqui no nosso país”, diz. A frase resume o ambiente político. Polarizado. Fechado. Pouco permeável a alternativas.

Lia reconhece o ativo político do irmão. Não desqualifica. Pelo contrário. “Eu acho que o Ciro só aceitaria essa proposta se ela viesse com mais robustez”. E aqui está o ponto central. Não é sobre o nome, mas sim sobre estrutura. Tempo de televisão. Recursos. Alianças. Capilaridade. Sem esse conjunto, candidatura presidencial não se sustenta. Vira intenção. Não vira projeto.

O diagnóstico avança quando ela toca na raiz do problema. “A maior parte do povo brasileiro está votando é um contra o outro, não a favor de alguém”. É a síntese da eleição contemporânea. O voto deixou de ser adesão. Virou rejeição. Esse mecanismo empurra qualquer terceira via para fora do jogo antes mesmo da largada.

Nesse cenário, o convite do PSDB a Ciro Gomes nasce limitado. O partido, isoladamente, não entrega densidade nacional. Falta musculatura. Falta rede. Falta lastro político nos estados. E isso pesa mais do que qualquer discurso.

Há ainda um bloqueio estrutural. A esquerda está consolidada em torno do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não há espaço para dissidências relevantes. O campo que resta é outro. A centro-direita. Fragmentada. Sem liderança clara. Mas, até certo ponto, aberta a uma construção, se houver articulação das boas. Bom, a grosso modo, a única brecha possível é a partir de uma articulação com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Difícil? Sim, muito!

É aqui que a análise de Lia encontra seu limite. Ela descreve com precisão o presente. Mas a política não é estática. O histórico de Ciro Gomes mostra isso. Entrou em disputas com densidade programática, mas sem aliança robusta. Sem palanques fortes. Sem base suficiente. O resultado foi sempre o mesmo. Competiu. Mas não rompeu a polarização. Pior: sua densidade política descresceu entre uma eleição e outra.

Mudar esse padrão exige coordenação política. Exige engenharia. Exige tempo. E exige comando. A responsabilidade recai sobre quem articula o convite. Especialmente Aécio Neves. Não basta chamar um nome competitivo. É preciso criar as condições para que ele exista no jogo. Ba prátic, até aqui, o que Aéco fez foi o que a crônica política chama de “balão de ensaio”. m teste de laoratório para ver o que dá.

Lia tem razão no agora. Mas o agora, em política, é apenas o ponto de partida. O clima que ela não vê não é dado. É construído. Ou não.

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