Nós, os que torcemos pelo touro; Por Angela Barros Leal

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No dia 9 de janeiro de 1824, os próceres da Câmara da Vila de Campo Maior, hoje conhecida como Quixeramobim, deliberaram que a dinastia de Bragança, incluindo nela o Imperador Dom Pedro I, deixava de comandar a nação. Naquele dia, nós, Clero, Nobreza e Povo cearenses, reunidos no centro geográfico do Estado sob o calorão do começo de ano, destituímos sumariamente a Corte instalada no Rio de Janeiro.

A notícia do golpe chegou a cavalo a quem de fato mandava, e o resultado todos sabemos: execução pública dos principais implicados na Confederação do Equador, morte de Tristão de Araripe, o líder da rebelião, perseguição à sua família e a seus aliados, e derrocada dos sonhos de formar uma República nortista.

Na II Grande Guerra, nós cearenses também assinamos com as próprias mãos uma declaração informal de guerra aos países componentes do Eixo. Reunidos em um impulso único saímos às ruas para depredar casas comerciais de estrangeiros aqui instalados há décadas, exibindo à indiferença do mundo um espírito bélico visto poucas vezes em terras alencarinas.

No Aracati, em especial, à falta de um alvo mais específico optamos por nos insurgir contra um monumento instalado no cemitério local. Lá se encontrava pacificamente, desde os anos 1920, um memorial erguido a dois aviadores alemães que haviam pousado seu hidroavião nas águas do rio Jaguaribe, para morrer logo em seguida na explosão acontecida durante a tentativa de decolagem. Nossa revolta patriótica desfez em mil pedaços o granito da homenagem.

Menos distante no tempo, o caso polêmico de Caryl Chessman seguiu roteiro mirabolante mostrando nosso potencial para o envolvimento com causas que não nos dizem respeito direto. Chessman estava preso na Califórnia desde 1948, acusado de ser o criminoso que a imprensa apelidara de “Bandido da Luz Vermelha”. Embora não houvesse provas contra ele, além do testemunho de duas jovens vítimas de roubo, sequestro e violência, Chessman foi condenado à pena de morte.

Por trás das grades, o acusado estudou, graduou-se em Direito para assumir sua autodefesa e publicou vários livros. A luta dele pela liberdade, dizendo-se inocente das acusações, prosseguiu por longos 12 anos, por se tratar de um tema polêmico: o direito que tem um Estado de matar alguém.

Não iríamos deixar de nos mobilizar contra a execução de Chessman. Rádios e jornais locais dispararam campanhas a favor do suposto injustiçado e respondemos condignamente. Abaixo-assinados contendo milhares de assinaturas de cearenses foram coletados para envio à Justiça californiana em protesto contra a sentença. Livretos de cordel contando a saga do preso chegaram às feiras populares. Crianças foram batizadas com o nome ou com o sobrenome dele.

Um vereador fortalezense chegou a se oferecer, de público, a ser trocado por Chessman na câmara de gás, visto ser ele, o dito vereador, um homem doente e idoso, e não um jovem promissor como parecia ser o acusado. O resultado da generosa oferta foi caracteristicamente nosso: os radialistas mais dotados da verve gozadora se prontificaram a estimular a troca, pelo bem de Fortaleza e da Paz mundial.

Se os abaixo-assinados ou a proposta de intercâmbio do vereador chegaram aos olhos das autoridades norte-americanas, tal fato não consta dos arquivos. Caryl Chessman foi executado na câmara de gás em 2 de maio de 1960, poucos dias após o arrombamento da barragem do Orós destruir casas, estradas, pontes e vidas no Vale do Jaguaribe. Nos solidarizamos com as nossas vítimas, é claro, embora sem o mesmo empenho explícito das causas anteriores.

Mais fácil nos identificarmos com o sofredor do Extremo ou do Oriente, Próximo sentirmos as dores do oprimido no Leste europeu, nos solidarizarmos com os descamisados da América Latina, torcermos pelo touro em todas as touradas hispânicas – o que talvez se deva a uma condição específica do ser humano: quanto mais distantes se derem os fatos sobre os quais nos manifestamos, mais importância poderá ter nossa presença no mundo.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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