O Brasil não é um país sério; Por Gera Teixeira

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Há décadas circula, atribuída a Charles de Gaulle, a frase que ficou: “O Brasil não é um país sério.” Se o general francês de fato a pronunciou, pouco importa. O tempo tratou de dar a ela uma inquietante atualidade.

O país, ao longo dos anos, consolidou a imagem de território permissivo para diferentes formas de ilegalidade. Não por ausência de leis, mas por sua aplicação irregular. Fronteiras frágeis, morosidade judicial e um ambiente institucional por vezes ambíguo criam condições em que a responsabilização nem sempre alcança quem deveria.

Um dos sintomas mais visíveis desse quadro é a tolerância cultural com o desvio. Há, em certos espaços, uma tendência a suavizar ou até romantizar o criminoso. O traficante vira figura de prestígio local, o corrupto é visto como hábil operador, o infrator recorrente passa a ser interpretado mais como produto das circunstâncias do que como agente responsável por seus atos. Enquanto isso, quem cumpre a lei e sustenta o sistema muitas vezes é tratado com indiferença, ou como alguém que simplesmente não soube jogar o jogo.

A corrupção nunca foi um fenômeno novo. O que chama atenção hoje é o grau de complexidade que ela atingiu e a forma como se entrelaça com estruturas de poder. Nesse contexto, o papel das instituições torna-se decisivo e, justamente por isso, mais sujeito ao escrutínio.

O Supremo Tribunal Federal, como guardião da Constituição, ocupa posição central nesse equilíbrio. Suas decisões têm impacto direto sobre a estabilidade institucional e a percepção de justiça. Quando surgem sinais de protagonismo excessivo, decisões concentradas ou interpretações que parecem variar conforme o contexto, cresce na sociedade a sensação de insegurança jurídica, ainda que muitas dessas ações se deem dentro das prerrogativas formais da Corte.

Paralelamente, o ambiente econômico também reflete distorções históricas. Parte relevante das grandes fortunas no país não nasce apenas da competição aberta ou da inovação, mas da proximidade com o Estado. Benefícios fiscais seletivos, crédito subsidiado e relações privilegiadas acabam criando assimetrias que dificultam a livre concorrência. O empreendedor independente existe, resiste, mas muitas vezes joga em desvantagem.

O aspecto mais preocupante talvez seja a adaptação coletiva a esse modelo. Em vez de enfrentá-lo, muitos acabam encontrando seu lugar dentro dele. O sistema se perpetua porque distribui vantagens suficientes para neutralizar resistências mais profundas.

A Operação Lava Jato, com todos os seus méritos e excessos, chegou a representar uma ruptura possível. Por um momento, pareceu que o país poderia estabelecer um novo padrão de responsabilização. Mas o movimento perdeu força e, com ele, a oportunidade de consolidar avanços institucionais mais duradouros.

Não há solução simples. Tampouco virá de figuras salvacionistas. Qualquer mudança real depende de pressão contínua por parte da sociedade, por transparência, por equilíbrio entre os poderes, por critérios técnicos no serviço público, por segurança jurídica e por responsabilização efetiva, especialmente nos casos de corrupção de alto nível, que são os que mais drenam recursos e confiança.

Enquanto isso, a frase atribuída a De Gaulle segue ecoando, não como sentença definitiva, mas como provocação incômoda. Talvez o desafio não seja negá-la, mas, enfim, torná-la ultrapassada.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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