Camelos e dromedários e o nascimento da literatura; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Literatura

[Uma historinha mal-contada]

“Ô rapaz por que não fica com esta Bíblia? Dou-lha por dez tostões. É o livro de Deus onde estão as eternas verdades. E se ficar com ela, vai mais este volume de quebra sobre as feras que devoram os homens, as feras morais”, João do Rio – “Os mercadores de livros e a leitura das ruas”

Já se explorou muito as fontes da história para descobrir como e porquê surgiu o alfabeto. As versões mais variadas e infundadas multiplicam-se pela voz e pela escrita dos cronistas.

Suspeitam alguns pesquisadores que teriam sido os persas que criaram os códigos mais rudimentares, ainda assim eficientes o bastante, para que lhes fosse dada alguma utilidade. E o fizeram movidos pelas necessidades contábeis dos seus negócios. A escrita, segundo esses investigadores, foi uma forma de controlar as atividades de compra-e-venda de semoventes e de outros bens de consumo.

Parece razoável, pois o homem (por aqueles tempos, mulher não contava, nem os juristas haviam criado o feminicídio) sempre agiu motivado por interesses e necessidades. Ninguém havia lido, até então, Saramago, nem Cervantes, ademais de Shakespeare e Homero, daí não ter surgido a tempo o “homo literatus” que enche as prateleiras do mundo civilizado.

Há, entretanto, quem trabalhe com a suspeita, a que me associo, “bon gré, mal gré”, a respeito do nascimento da escrita literária, que os filólogos chamam, hoje, de “textos”. Pretextos, melhor diríamos, contextos criados pela ficção.

Um certo mercador empregara para o transporte das suas mercadorias postas à venda um cuidador de camelos [haris aljamal]. Descobriria, muito cedo, entretanto, quão poucas eram as suas habilidades para este tipo de atividades.

Surpreendeu, em viagem pelos caminhos de Samarcanda, “cruzamento das culturas”, o “haris” em hora de labuta a escrever palavras, e a dar forma e significado a alguns tropeços que encantaria, nos milênios seguintes, aos mais rigorosos especialistas em teoria literária…

Nascia a literatura, nos seus primeiros vagidos, para uma vida acidentada, de Virgílio e Homero a Paulo Coelho, da poética de Goethe à literatura “queer”… Da inspiração prodigiosa de poetas e
aedos aos mercadores de palavras, os lembrados e esquecidos de um
bela caminhada de beleza e talento.

Da contabilidade de bens à ficção, do real ao imaginário, tornamos-nos criadores das nossas origens culturais mais remotas. Não sem passar, entretanto, pela Biblia e por outras leituras edificantes, pelos manuais úteis para a edificação da alma, e para a correição da maldade.

Os alfabetos latino, grego, cirículo e as formas variadas de aletramento, códigos e a captação dos fonemas vêm dos fenícios e das suas carências contábeis. Foram sequestrados pelas razões da palavra de Deus e pelas injunções jurídicas dos homens.

A literatura, a prosa e a poesia salvaram a linguagem escrita pelas mãos dos artesãos da estética e das narrativas da memória.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

Lula lidera, mas Flávio encosta e vira principal rival, aponta Genial/Quaest; Polarização se mantém

MAIS LIDAS DO DIA

O palacete da Praça do Carmo; Por Angela Barros Leal

Informalidade no Brasil recua para 37,5% e atinge menor nível desde 2020

Procon multa Fraport em R$ 3,1 milhões por falta de cadeiras no Aeroporto de Fortaleza

Paulo Câmara retorna à presidência do Banco do Nordeste após período de quarentena previsto em lei

Rio de Janeiro - Edifício sede da Petrobras no Centro do Rio. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Lucro da Petrobras cresce quase 200% e chega a R$ 110,6 bilhões em 2025