É a democracia, estúpido! Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

Todas as mensagens de convocação para as manifestações do dia 15 que vi, e vi muitas, conclamam para um ato que defenda a ruptura da ordem democrática. As postagens convocatórias não se pautam por uma pressão específica, a favor da aprovação de alguma medida apenas, o que seria não só legítima como bem vinda. Não. O que se propõe é a submissão dos outros poderes à vontade do presidente, o que é, por sua vez, apenas outra maneira de pedir a volta da ditadura – e militar, no desejo de muitos. Para fundamentar sua compulsão autoritária, as mensagens evocam a soberania popular – a vontade do povo faz a lei e não o contrário – ignorando que a “vontade da maioria” se expressa, em qualquer Democracia, através do voto e não pela imposição pura e simples de parte da população.

O que aqueles cidadãos de anseio temerário precisam lembrar é que o congresso que eles pretendem tutelar foi eleito, tanto quanto o presidente cujo governo apoiam e sob as mesmas regras. Queixam-se de que se está impondo a Jair Bolsonaro um parlamentarismo, sem contudo apontar – de forma específica, já que a queixa é grave – em que aspecto legal a Constituição Federal, no que tange ao modelo previsto, presidencialista, estão sendo aviltada. No caso, seu desapontamento se dá em relação ao Orçamento Impositivo. É incongruente: os parlamentares da base de Bolsonaro aprovaram a medida há menos de um ano, inclusive com o voto de Eduardo 03, o filho do presidente com assento na Câmara Federal que, ao votar, afirmou que seu pai, o Presidente da República, apoiava com entusiasmo a aprovação do mesmo (postei o vídeo no Facebook, veja lá).

O estopim de toda a sanha foi, como se sabe, o vazamento (sempre eles!) de uma conversa entre ministros, privada e informal, em que o general Heleno (Segurança Institucional) se queixava de “chantagem do congresso sobre o governo”, finalizando seu desabafo com um preocupante “foda-se”. Nas ruas, o rebanho bolsonarista, sob o aboio dos vaqueiros digitais que o comandam, entendeu a senha como um “vamos passar por cima”. Pois caberia agora ao general Heleno, diante do indesejável vazamento de seu diálogo, tomar a iniciativa de esclarecer melhor em que aspectos se vê “chantageado” e, como um ministro em um Estado democrático, tanger essa gente de volta para o cercado onde também nos encontramos nós outros, que igualmente nos queixamos de tantas outras coisas, mas estamos convencidos de que, sim, a democracia não é lá grande coisa, mas ainda é o melhor que podemos nos oferecer uns aos outros em nome da Paz e do Direito. Juízo, gente.

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